Mostra Um Curta Por Dia mes 12

Rodeo

Uma crônica sobre modernos e jovens caubóis motorizados

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2022

Rodeo

Exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2022, “Rodeo” é um daqueles típicos filmes franceses que buscam traduzir o comportamento dos jovens franceses pelo realismo coloquial, com câmera próxima a fim de criar uma atmosfera mais imersiva, fazendo com que o espectador tenha uma sensação de assistir um documentário da própria vida em forma de ficção. É permitido, a essa geração, alimentar a autodefesa passiva-agressiva, característica esta vista como uma liberdade existencial, de naturalismo comportamental e de orgânica construção humana, por exemplo, bufar expressões, enraivecer pensamentos e falar em verborragia, quase em monólogos. E na maioria das vezes não escutar respostas e o outro lado do interlocutor, potencializando-se assim o individualismo do achismo a níveis extremistas. O longa-metragem, ao aprofundar essas idiossincrasias não sociais, pela narrativa micro-observacional, quer abordar simplesmente uma história intimista, uma crônica particular que acontece no meio de todo esse macro. “Rodeo” não tem pretensões de criticar as personagens e a temática levantada, apenas humanizar causas, porquês e consequências dos incompreendidos “enfant terrible”, indivíduo este que se define no dicionário como “muito independente, cuja inteligência e ímpetos de imprudência criam problemas na sociedade ou no grupo em que vive”.

Realizado pela francesa parisiense Lola Quivoron, com 34 anos de idade, estreante na direção de longas-metragens, “Rodeo” é um moderno retrato dessa geração mencionada acima. Só que o curioso é que esta é a mesma derivada dos filmes de François Truffaut, por exemplo. São os novos “jovens turcos” que fazem questão de impor suas atitudes, que chegam a soar arrogantes. Será que tudo isso é inerente ao jovem? Outra característica desse tipo de filme é a necessidade da salvação. Acredita-se na redenção. Aqui, essa insubordinação é enxergada como sobrevivência e como uma fase pré-adulta. “Seja imprudente enquanto você não cresce” – esta máxima pode ajudar na compreensão de toda tradução que tento desencadear. “Rodeo” traz esse embasamento humanizado e tudo acontece do jeito que acontece por causa de inúmeras questões prévias, sociais, históricas e de suas intrínsecas essências. Dessa forma, é quase impossível “ensinar o certo” e “não sentir pena” da personagem, porque ela é assim por alguma força invisível de blindada penetração.  

“Rodeo”, que muito pode metaforizar a ideia de caubóis contemporâneos, é fruto de tudo isso. Para se tentar decifrar é necessário mergulhar em todos os costumes condicionados ao longo dos tempos. É necessário buscar o ponto zero de uma nação que se retroalimenta dessa co-dependência de uma pseudo-liberdade de ser e de existir. São livres ou estão padronizados em suas crenças imutáveis e intransigentes? Será essa uma limitada zona de conforto à nova forma de futuro? A impressão que tenho é de que nada mudou. Que estes jovens vivenciam o hoje exatamente da mesma forma do antes. Pois é, a excelência de um filme não está somente em suas imagens. Não. E sim pelo desdobrando de percepções, semeando dúvidas e a obrigatoriedade de se aprofundar as novidades recebidas. “Rodeo” é definitivamente um desses filmes. Mas também não é só isso. É também sobre superar limites e encontrar “lugares”. É sobre lutar pela inclusão: nossa protagonista quer ser aceita no seleto e masculino “mundo subterrâneo” do motociclismo. Durante a sessão de gala no Festival de Cannes, a palavra mais repetida nos discursos foi “atitude”. No dicionário, este substantivo feminino traduz-se por “disposição interior; maneira, conduta, pose, posição, postura”, mas também “arrogante, passiva”. Essa evocação vernacular possa ajudar a conotar o propósito do próprio filme, já que conduta é parte de um processo. Então, “Rodeo” é uma obra em construção, massificada pela crença absoluta e definitiva que essas consequências são universais e assim imutáveis. 

Eu ainda não estava satisfeito e fui procurar porquês. Em uma das entrevistas em Cannes, a diretora Lola Quivoron explicou a The Hollywood Reporter os motivos iniciais que a levaram a fazer o filme. “Passando um tempo com esses grupos de motociclismo desde 2015, eu sabia que havia muito poucas mulheres. Eles são muito, muito raros. Foi difícil encontrar algum. Estas são comunidades muito unidas e é um ambiente muito dominado por homens. A protagonista do meu filme era uma personagem de sonho, alguém com quem eu sonhava e fantasiava há muito tempo. Comecei a escrevê-la a partir de uma fantasia, mas nunca a tinha conhecido”, então o mote foi fascínio e de estudo feminista. É, talvez isso sim explique tudo, porque uma das características dos franceses é esse afã por descobrir  novo, por se aprofundar em específicas comunidades de organicidade social. 

3 Nota do Crítico 5 1

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