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Revue

Nosso País em Revista

Por João Lanari Bo

Mubi

Revue

Em 1956, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS, Nikita Khruschov pronunciou o famoso discurso secreto denunciando os abusos de Stálin e, implicitamente, liquidando a infalibilidade do Partido. Stalin, que morreu em 1953, usufruiu em vida de um dos maiores cultos pessoais de que se tem notícia na história moderna. Sergei Loznitsa montou em 2020 o colossal “Funeral de Estado”, com imagens do velório coletivo do líder: o crítico Jim Hoberman sugeriu que o filme “evoca o espetáculo de um faraó morto colocado para descansar em uma pirâmide de celuloide projetada por ele mesmo”. Inspirado em poema de Joseph Brodsky que satiriza o soviet way of life, Loznitsa realizou em 2008 “Revue (Revista)”, utilizando imagens de “atualidades” de cinejornal filmadas entre 1957 e 1967: o resultado foi uma crônica da vida soviética pós-Stalin, respirando ares mais liberais, mas ainda sob o jugo da organização político-econômica enrijecida da lógica comunista. Em outras palavras, um documentário-compilação feito a partir de 180 edições do cinejornal “Nosso País”, produzido em Leningrado (atual São Petersburgo): e editado, claro, com os recursos estilísticos caros ao diretor – sem narração explicativa, sem esclarecimentos geográficos ou cronológicos, despojado de acompanhamento musical, focando o olhar do espectador no que se passa à sua frente.

Mesmo com todo esse deslocamento narrativo, “Revue” é capaz de traduzir como poucos o Zeitgeist de uma época, ou melhor, de uma civilização – a soviética. Em 1957 o “degelo”, como ficou conhecida a distensão promovida por Khruschov, seguia a passos céleres. A política agrícola, especialidade do novo líder, foi reorientada em busca de novos espaços para produção, na Sibéria e no Cazaquistão. Reformas administrativas descentralizaram decisões sobre gerenciamento da produção a conselhos regionais. A maioria dos grupos étnicos e nacionais foi liberada das transferências forçadas feitas anteriormente, favorecendo a mobilidade interna e o retorno às origens – parte dessa população estava nos campos do Gulag. A perseguição política diminuiu significativamente. Foi reforçada a produção de bens de consumo, em contraste com a prioridade absoluta na indústria pesada dos planos quinquenais anteriores. Projetos de infraestrutura de grande envergadura foram redimensionados, e os recursos excedentes orientados para habitação, apontando para a criação, a médio prazo, de uma nova paisagem urbana. O sistema e o estilo autoritário de gestão governamental continuaram a imperar, mas a relativa flexibilização do período, conhecido como “Primavera”, permitiu a ascensão de políticos mais liberais, como Gorbachev. O culto a Stalin desapareceu: a referência básica transferiu-se para Lênin, o fundador e a medida moral da grande nação.

Cinejornais, na ausência da televisão massificada, tinham papel crucial na comunicação oficial do Estado: em meados dos anos 60, por exemplo, cerca de 4 bilhões de ingressos em salas de cinema eram vendidos anualmente na União Soviética. Antes da atração principal, longa-metragem, o cinejornal informava e educava, conformado pelos limites ideológicos do momento, às vezes explícitos, às vezes mais sutis (a tradição começou na aurora da revolução socialista, com o fabuloso “Kino-Pravda” de Dziga Vertov). A estrutura era semelhante ao jornal impresso: lead do noticiário sobre grandes acontecimentos políticos, agregado de cenas da “nossa vida cotidiana”, tais como trabalho industrial e agrícola, obrigações e relações sociais, eventos culturais e esportivos. “Revue”, de Loznitsa, traz todos esses momentos como se fora uma edição especial, com a trilha sonora depurada: sons ambientais eventualmente acrescidos, algumas falas reproduzidas como na gravação original, sem manipulações. No teatro, a dramatização de uma fazenda coletiva (Lenin recomendando a coletivização agrária) ou de um processo político injusto e equivocado (alusão ao clima paranoico stalinista) são efusivamente recebidas, sem o artificialismo que se espera de uma audiência soviética. Na siderúrgica, operários se rejubilam com seus recordes de produção, mas o som “naturalizado” – sem música, mas com conversas indefinidas ao fundo, ruído de equipamentos, depoimentos sincronizados ligeiramente estendidos – esvazia o conteúdo propagandístico construído sobre o “novo homem soviético”, e traz a materialidade da imagem para o primeiro plano.

A exaltação da classe trabalhadora contagia os meios de comunicação: a produção de uma notícia pela rádio local – trem chegando com carregamento recorde – é reconstruída como se fosse um feito heroico. Nem tudo é celebração: julgamentos e condenações são exibidos, para corrigir desvios e maus comportamentos. A Guerra Fria, como não poderia deixar de ser, paira em estado de potência por detrás dessas imagens: em um lampejo, marionetes de Chubby Checker e banda cantando Let´s twist again, são apresentados como “decadência do capitalismo”. A atração central de “Revue” é a visita de Khruschov a uma cidade desse vasto país: recebido com entusiasmo razoavelmente sincero, o líder responde, em seu discurso – “se usarmos nossos recursos racionalmente, o comunismo vencerá o capitalismo”.

Uma sucessão de rituais que evidenciam a engenharia social desenhada pela lógica da governança comunista, enfim. Somos transportados para a plateia de uma sessão de cinema na União Soviética da “Primavera”; o futuro é aqui e agora, como disse Khruschov. Não obstante, a história seguia seu curso: Loznitsa identificou, ao examinar o material de arquivo, mudanças sutis nos corpos em cena:

até mesmo na maneira de ‘falar para a câmera’. Você pode ver ingenuidade e espontaneidade no comportamento das pessoas que deram entrevistas na década de 1950. Tem-se a sensação de que encontraram uma câmera pela primeira vez … em meados da década de 1960, o comportamento muda completamente, fica claro que os entrevistados estão mentindo para a câmera, a espontaneidade desapareceu e foi substituída pela falsidade

“Revue”, de 2008, está disponível no MUBI.

4 Nota do Crítico 5 1

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