Resgate

Ação Contagiante, Drama sem Razão

Por Daniel Guimarães

O gênero de ação recebe, nos últimos anos, uma sequência de obras que encontram sua função de ser na própria estetização das sequências de brigas e tiroteios, sobressaindo-se sobre dilemas de roteiro. Não que antes isso não fosse feito, porém acredito haver um interesse maior pela plasticidade visual. A técnica em si se sobressai a um desenvolvimento narrativo formal, buscando uma experiência estética que gere envolvimento e empolgação ao assistir. O maior exemplo é, claro, a franquia “John Wick“. Há, porém, um dilema crônico no estilo: o que fazer quando a ação não está acontecendo. Na série protagonizada por Keanu Reeves, encontra-se uma solução prática e eficiente. Assumindo o caricatural e seus próprios absurdos, o que ocorre fora das coreografias é apenas um aprofundamento da mitologia do universo e de seus assassinos, funcionando como um fio que amarra o enredo como um todo. Raramente se aproxima do drama. Quando ocorre, está mais interessado em seu cachorro do que no suposto trauma pela perda de sua esposa, como se assumindo sua própria despretensão. O foco é o quão criativo podem ser ao inovar cenas que, no papel, já foram protagonizadas por Bruce Willis, Tom Cruise, Sylvester Stallone, ou qualquer um do elenco de “Os Mercenários“. “Resgate” não encontra essa solução, se destacando na arquitetura de sua ação, porém sem qualquer justificativa para a recorrente dramatização e tentativa, falha, de identificação com os dilemas dos personagens.

Dirigido por Sam Hargrave, “Resgate” conta a história de Tyler Rake (Chris Hemsworth), mercenário contratado para executar o resgate de Ovi (Rudhraksh Jaiswal), filho de um dos chefes do tráfico indiano. Não há qualquer indagação ao propósito de obras que buscam realizar um projeto estético e de sensações, pouco se importando com sua história, ainda mais considerando um gênero tão propício. Mesmo fora dele, os irmãos Safdie fazem, de “Bom Comportamento”, um exercício de estilo e adrenalina. Aqui busca-se o envolvimento através da construção da ação, mas não consegue se ater a isso, necessitando de inserções constantes que buscam um panorama pessoal e dramático na narrativa. Em seus respiros, apela para o que menos deveria: a psicologia quebrada de um personagem que não possui qualquer identificação. O carisma de Hemsworth não é o suficiente para convencer-nos da relação paternal que cria com Ovi, sua missão. Tampouco sua personalidade ou “grande” drama familiar são concretos ou palpáveis para elaborar suas angústias. Vê-lo ingerindo álcool, com expressão sofrida, não é suficiente enquanto roteiro. Também esteticamente, Rake não se difere de qualquer mercenário, sem qualquer característica marcante para que nos envolvêssemos em sua imagem. Novamente em comparação, o “uniforme” e o visual de assassino em “John Wick” já é icônico, em unidade com a proposta da franquia.

Em maior escala, a estrutura de “Resgate” é bastante característica do gênero, se assemelhando a fases de videogames. Após iniciada a missão, as etapas vão evoluindo e aumentando sua escala ao longo do caminho. O primeiro vilão presente é significativo para isso. Após infinitos soldados serem mortos, o chefe de fase se apresenta de preto, trilha sonora intensa e causando dificuldades maiores ao protagonista. Após isso, o maior vilão será o engravatado, aquele que ordena de longe, sem pegar em armas. É uma organização bastante funcional para o filme, justamente por criar espaços dentro da narrativa que sirvam para alavancar e diversificar a plasticidade das sequências de ação. Nelas se encontram, sem qualquer dúvida, seu maior mérito. Pela técnica,  o espectador se admira e se envolve na encenação. Para isso, usa-se momentos em planos-sequência (recorrentemente geradores de cenas interessantes) ou outros focados em inserir planos como espectador ou primeira pessoa. Varia-se as maneiras de apreender o universo. A câmera, em geral, se mantém móvel, porém nunca trêmula, com enquadramentos que maximizam o impacto de cada um dos golpes, evitando a artificialidade geral de uma câmera alucinada. Em conjunto de uma montagem também paciente, cria-se uma lógica dos espaços e das consequências de cada movimento, não um amontoado de cortes ofegantes. A partir disso, a criatividade da coreografia pode se mostrar clara. Nela, um inimigo pode ser derrubado de diversas formas, de armas complexas a uma simples ferramenta.

Em “Resgate”, porém, parece haver também um comentário sobre guerra e violência. As consequências que experiências em tais cenários geram em qualquer ser humano, seja criança ou adulto. Um terror psicológico que acaba por criar traumas e culpas. Para além de uma violência geral do filme, o comentário é enfatizado no passado de Rake e Ovi. Este, porém, apesar de nunca aparecer como o foco, se enquadra na lista de temas inseridos nos tempos mortos, que nunca se concretizam ou avançam enquanto narrativa de fato. “Resgate” perde significado ao nunca assumir integralmente sua própria vocação e capacidade ao puro entretenimento estético, procurando e jamais encontrando as soluções ideais para seus vazios em meio a tiros, socos e explosões.

Trailer

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