Raia 4

Por Marcelo Velloso

Raia 4Raia 4

O “Raia 4” sai da raia

Por Marcelo Velloso

Durante o Festival de Cinema de Gramado 2019

 

O longa-metragem “Raia 4” (2019) de Emiliano Cunha conta a história da menina Amanda que está na fase da adolescência e integra uma equipe de natação. Amanda é introspectiva e extremamente tímida, o que acaba atrapalhando sua forma de se relacionar com as pessoas em geral. Além disso, a personagem principal tem dificuldades na forma como lhe dar com as transformações e descobertas da sua idade. 

A história se desenvolve e segue mesclando momentos de convivência de Amanda com o seu grupo de colegas durante os treinos/competição de natação com cenas de conversas da mesma com seus pais. Pode-se dizer que há diversos indícios de Complexo de Electra no filme inclusive, uma vez que é notória a sua dificuldade de se relacionar com a sua mãe. Em contraponto a menina demonstra uma aproximação muito maior com o seu pai. 

O filme, que integra a mostra competitiva oficial do 47o Festival de Cinema de Gramado, sofre com um ritmo arrastado e com as situações repetitivas apresentadas. Amanda é interpretada pela atriz Bridia Moni que está em seu primeiro trabalho como atriz. A personagem central é extremamente tímida e introspectiva sim, mas de tanto embarcar nessas características, a atriz fica inexpressiva, de forma a gerar certo desinteresse na história da mesma. O perfil da personagem não justifica a falta de emoção na maioria dos momentos, os estresses gerados pelas questões enfrentadas por ela poderiam gerar reações, nem que fossem dentro das quatro paredes do seu quarto. A protagonista já tem poucas falas e a frieza excessiva acaba deixando-lhe aérea em diversos momentos.

“Raia 4” esforça-se para mostrar o quanto a Amanda está deslocada dos demais do grupo e com seus desconfortos e isso acaba resultando em diversas cenas desnecessárias. Deste modo, o filme acaba ficando cansativo no seu desenrolar. A relação de Adriana com a personagem Priscila (Kethelen Guadagnini) é ressaltada dentro do grupo de atletas. Ao longo do filme inteiro cria-se um clima de atração entre as duas, por meio de olhares, gestos e até toques, o que seria aceitável numa idade de descobertas. No entanto, observa-se também certa competição entre as duas, mas muito mais latente na Priscila em relação à Amanda que o contrário. O que poderia até mesmo ter relação com a possível atração entre as duas.

Um momento marcante no filme, não que isso seja bom, consiste numa cena reproduzida repentinamente sem relação alguma com o contexto do filme e gera incômodo de cara. Logo depois é esclarecido com o afastamento da câmera, vale ressaltar nesse texto sem dar maiores detalhes para não dar spoiler. No entanto, o estranhamento nesse instante foi geral.

O filme cria uma gama de possibilidades, uma vez que são muitos os conflitos da menina, mas em momento algum deixa claro algum sinal de psicopatia ou de mudanças bruscas de humor. O problema parece ser mais dela com ela mesma, algo interno, no sentido de não auto aceitação do que qualquer outra coisa. A narrativa não é sustentada. 

As cenas de quando o grupo de atletas está numa hospedagem para participarem de uma competição acaba dando uma movimentada no filme e ali cria-se a expectativa de que algo pode ganhar força para leva-lo ao final, o que não acontece.

Um ponto alto é a direção de arte do filme que opta pela utilização das cores azul e vermelha.  A estética do filme é realmente muito boa e trabalha com tons frios. A piscina gera belas imagens e o último plano é maravilhoso, embora o final não seja. A equipe de figurino executou um belo trabalho e ajudou a reforçar características das personagens.

O diretor do longa-metragem Emiliano Cunha, que também é nadador, tem profunda relação com o tipo de ambiente, onde é rodado grande parte do filme, o que ajudou na construção daquele universo, certamente junto de sua equipe. Por ser um elenco com nadadores e possivelmente pela preparação pela qual os mesmos foram submetidos, o grupo apresenta uma boa química nas cenas em conjunto.

Há uma discrepância notória entre o caminho que é construído para a personagem da Amanda com o que acontece no final do filme, o que acaba gerando certo desconforto. Espera-se tudo do desfecho, menos o que é apresentado. O “Raia 4” sai da raia exatamente no final.

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=IkP3KYZBEk0

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