Querência

Paisagem cinepolítica

Por Vitor Velloso

Itaú Play

Como já vêm sendo discutido há muitas mãos, o cinema brasileiro parece estar entrando em uma fase de inércia, após conseguir sair do eterno beco sem saída, agora entramos em outro, o da autoconsciência estética e referencial interna. O que não é um sinal ruim.

Dirigido por Helvécio Marins Jr., “Querência” é um retrato fidedigno da realidade do cinema brasileiro, é a discussão política dita na tela, em oralidade, mas não pela lente objetiva. E essa constante se dá pela própria pauta da encenação como a própria geograficidade do local e não uma proposição do cinema. A temática está longe de ser nova, mas vem sendo debatida nos anais da geografia e do cinema. Aquilo que se configura como uma espécie de paisagem política parece ter se tornado a vertente máxima do que se filma. Andressa Mattos, brilhante, tornou pauta de pesquisa a própria psicogeografia que isso se configura. “Então Morri” de Bia Lessa é o ápice dessa compreensão. Assim como sua morte.

A autoconsciência estética e referencial formal ou temática da cinematografia brasileira, uma transa autoral e histórica, demonstra um amadurecimento dos polos de produção no país, sobretudo em Minas, mas parece expor, em repetição, a fragilidade que tomou conta dos filmes europeus pós-70. Ou seja, filma-se Brasil, mas parece haver aí um casamento complicado entre a lente, o terreno, os personagens e sobretudo, a sala de montagem. “Querência” fica em um limbo de Uchôa com rodeio, retratando o cálcio e o tutano como a realidade mostra, mas isso já tá virando um arquétipo estético, uma muleta de sobreposição de assunto. Salta às pautas nas falas dos personagens, mas não consegue encaixar o próprio discurso em meio ao âmbito político que se encena. Se torna uma digressão da própria ideia de digressão.

Ainda que possua algumas cenas marcadamente vitais, em especial nas leituras radiográficas narrativas que se promove à esmo, uma herança cara da cultura brasileira. A ordem do dia é: Enquadrar e dar rec. Não dá pé. A estrutura solta vai se perdendo, em determinado momento o espectador esquece o que está assistindo propriamente, pois os vínculos só se mantém em topografia e uma centralização dramática que nunca se resolve. O que por sinal é um fio interessante da obra, uma manutenção dessa regionalização enquanto cultura fixa, mas que busca um movimento interno de ordem bastante comum. Mas isso não se transpõe para tela.

A cena da negociação do preço da galinha segue sendo um momento de intensidade da narrativa, é uma esgarçamento do quadro nessa negociação que parece não ter fim, é canhestra, é sincera, marginal e necessária. Mas esse possível vigor fica deslocado em momentos isolados. O próprio tempo já é passado, debate-se o impeachment, o impacto político disso.

No Brasil, tudo fica datado em horas, mas não em “Querência”. O filme se apega ao lugar e decide contar seus cantos e meandros, o que daria uma prosa interessante se assumisse a crônica como necessidade narrativa, mas parece estar interessado em transformar esse formato em fragmentos do todo, almejando sempre esse retorno à inércia. O que no papel parece funcionar bem, em todos os aspectos, mas na prática deixou a monotonia e o prolixo reinar.

Helvécio (de “Girimunho“) sabe o que faz, coloca a câmera onde o espectador não enxerga o assunto, conduz bem essas entrelinhas do próprio quadro, da própria região, só não consegue costurar isso tudo de maneira sólida. Essa suposta suspensão do tempo é uma outra vertente comum desse estilo cinematográfico que toma conta das nossas telas, é uma leitura bastante consistente do quão volátil são os nossos espaços em meio ao tempo. Mas aqui não encontra lugar nessa discussão e se perde no conjunto de um plano aberto que parece apontar ao mundo, mas não possui consciência do mesmo.

“Querência” possui uma ordem interessante do fazer cinematográfico, mas parece estar preso demais ao materialismo formal da escola de cinema do real, enquanto demonstra fortes adereços de uma intimidade dramática, acaba ficando entre as duas coisas e expõe, mais uma vez, a fragilidade da conjuntura do “filmar o que acontece no quadro”. Mas ainda assim, possui lugar na discussão desses espaços, do tempo e primordialmente de suas belas imagens, fruto de uma fotografia deslumbrante e de um cenário que não se muda com facilidade, nem mesmo às frentes políticas.

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