Quarto 212

A realidade fabular com ex-s viajantes do tempo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

“Quarto 212”. Ao adentrar, analisar e sistematizar as cenas dos filmes de Honoré, nós observamos explicitamente que Honoré não só homenageia a Nouvelle Vague como também a cinefilia e o “prazer dos olhos”, termo homônimo do título e mencionado no livro “O Prazer dos Olhos – Escritos Sobre Cinema”, escrito por François Truffaut. Essa paixão pela sétima arte, o cinema, é corroborada em outra homenagem. E nada melhor do que as imagens para comprovar pontos de vistas. Nós conseguimos entender melhor esse amor incondicional na cena do filme “Os Sonhadores” em que jovens competem pela primeira fileira do cinema para assistir a primeira exibição de um filme aguardado e dizem “tudo para receber o filme antes de todos”, entre cigarros, silêncios e brilhos atentos no olhar. Essa paixão egoísta é o que mais representa o sentido da Nouvelle Vague.

Assistir a uma obra de Christophe Honoré é embarcar em uma viagem no tempo à essência do cinema, em sua forma mais pura e sensorial. Nós somos convidados a participar do próprio filme por meio de sua metalinguagem, suas conversas em cafeterias, seus cigarros, suas câmeras que acompanham as personagens pelas ruas da cidade. Esse cinema direto, de criar uma espontaneidade intimista é perceptível. Honoré fortalece em seus filmes a quebra de paradigmas da Nouvelle Vague. Os ambientes externo e o interno complementam-se mediante necessidades urgentes do ser enquanto humano (fisiologias da alma) e como indivíduo social. As ruas da cidade são integradas no cenário cotidiano.

Em seu mais recente filme, “Quarto 212”, exibido na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2019, que venceu na categoria de Melhor Atriz para Chiara Mastroianni, os quartos, “isolamento pré-suicida”, são lugares de explorações iniciais, como “veículos” à “prova” final de se misturar no lado de fora.  Nós adentramos em um universo não binário, de permissão. De terapia de choque pela imaginação personificada. Os “fantasmas” da mente ganham corpo e “consertam” memórias, estimulando abertas e livres discussões de relacionamento não sensíveis (até porque a perda de limites é dada pela perspectiva desta “loucura” pensante e de análise prós e contras.

“Quarto 212”, que foi o Melhor Filme do festival pelo Vertentes do Cinema, é um filme visualmente estético de organicidade teatral. Que se olha por brechas e que se sai por cortinas. Por luzes neon artificiais de uma noite de realismo mágico com a naturalidade da verdade. É também uma obra nouvellevagueana, de classicismo estrutural, com seus contínuos cortes rápidos e discursos existencialistas, entre elipses do mesmo tempo e momentos universais da vida de um casal não convencional, em que permissões são exploradas para testar quereres e estágios atuais. Como o marido perfeito e a mulher confusa, esta que se ressignifica e se empodera, ainda que repercutindo mentalidades tipicamente masculinas.

O longa-metragem busca amor, livros, maquetes reconstituídas, referências, cumplicidades, digressões, monogamias questionadas, provocações para estimular o novo,  casos irrelevantes, metáfora poética e resolver com urgência e impulsivamente o futuro matrimonial, podendo ser apenas um respiro-férias da realidade com um portal encontrado de um universo paralelo temporal. O marido fiel versus a honestidade demasiada dela (que gera humor desconfortável). Tudo acontecendo em cima de um cinema. É a metalinguagem extra-campo. Um moderno,  sofisticado, genuíno e perspicaz conto-de-fadas. A mestria de está em sua execução despretensiosa do simples. É um filme que  acontece.

“Quarto 212” é uma fantasia de sonho acordado. Uma liberdade mental para reencontrar a essência do desejo. Da juventude e suas crenças ainda possíveis. Nossa protagonista viaja na metafísica ofertada e “tira satisfações” com seu passado, com seus ex (eles abrindo portas e ela fechando), suas culpas infiéis, com o que deixou e o que fez demais. Todos rebatem “farpas” e “contra paredes” com cúmplices atitudes naturais nesta “vida utilitária”, resolvendo tudo pelas palavras. São visitas de eus antigos com a esperteza do agora. Sim, a estranheza é a própria condução. Como trair o marido antigo com o novo que a encontra porque está em sua mente à moda de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann, só que sem puritanismo algum, evocando semelhanças, inclusive, com Woody Allen (tanto que o diretor o agradece explicitamente nos créditos finais) e seu “Meia-Noite em Paris”, em forma bem mais francesa, como só os franceses sabem saber. É um filme-psicanálise. Um prato cheio, que procura inserir mais pistas, como a escolha dos filmes passando: “Graças a Deus” e “We are Animals”.

O longa-metragem apresenta-se como uma epifania atmosférica, sensorial, de cadenciada e proposital desordem narrativa,  quase um “A Rosa Púrpura do Cairo”. “É gay?”, “Irrelevante”. Cria-se uma nostalgia natural colada à realidade para fazer a personagem entender o que mudou. “Amor é construído pela memória; amar no presente não tem sentido”, filosofa-se. “Quarto 212” é para se tornar um filme de cabeceira.

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