Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa

Terra à vista

Por Fabricio Duque

Quase todo filme, adaptado de livros autobiográficos pelo viés existencial, tende a incorporar características mais melodramáticas, buscando, assim, traduzir fidedignamente a história contada, que, por sua vez, já nasce escrita como ficção, porque a própria memória romantiza fatos e/ou potencializa traumas experimentados. Em “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa”, longa-metragem alemão baseado no romance homônimo, infantil e semi-biográfico “Trilogia Fora do tempo de Hitler”, de Judith Keer (1923-2019, que escreveu há 50 anos – em 1971 – e que na transposição às telas tornou-se Anna, a protagonista-perspectiva), não só traz o tema do Nazismo, que nunca sai de moda (talvez porque seres humanos só se adaptem socialmente e não internamente orgânicos), como almeja atenuar a “vida difícil” dos “refugiados” de uma pré-guerra esperada do Terceiro Reich. Esta é uma épica trajetória de uma família em “exílio” à procura de novas condições de liberdade.

Dirigido e roteirizado por Caroline Link (indicada ao Oscar de Melhor Estrangeiro por “A Música e o Silêncio”), “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa” apresenta-se como uma fábula-novela, que, apesar de importar elementos mais sentimentais, foge do clichê completo ao seguir o comportamento social dos judeus alemães: o de tornar espirituoso o realismo. Há uma perspicácia, não sensível, em dosar emoção e drama, tudo pela não suavização do que se é confrontado. Dessa forma, as novidades podem até soar uma benção e/ou um presente de Hitler, que ao “roubar” o coelho de pelúcia cor-de-rosa de uma menina de nove anos, forneceu a perda da inocência, a possibilidade de crescer mais rápido (de não mais alimentar a imaturidade da idade) e principalmente a oportunidade de sentir novos mundos, países, culturas, línguas e preconceitos. Sim, provavelmente não foi assim que tudo aconteceu, mas quem pode duvidar da memória de uma criança que se refugiou na esperança?

O que talvez possa incomodar é que, praticamente, noventa e nove porcentos dos filmes querem contar em duas horas o que aconteceu em uma vida inteira. A consequência é a necessidade de instantes-esquetes, de elipses, de fragmentos mais superficiais, visto que se cada um fosse aprofundado, nós encontraríamos uma obra de no mínimo dez horas de duração. Nem mesmo “Alexanderplatz”, de Rainer Werner Fassbinder, conseguiu atender toda uma existência. Quando se diz que pode incomodar é por causa desse formalismo fidedigno de agradar a quem escreveu (e sofreu na própria pele as durezas de sempre ser um estrangeiro à espera de um lar). “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa” nos mostra, em um formato-padrão de auto-ajuda mais romanceada, que a felicidade se faz no lugar em que se está. E que começar de novo, da “estaca zero”, representa a própria aventura do conhecimento. De que raízes são apenas tradições (como, por exemplo, judeus comemorarem o Natal mesmo sem acreditarem Jesus). Uma ideia. Um norte. Um acalento.

No filme, mais implicitamente, os espectadores conseguem perceber algumas dicas easter egg cinematográficas. Anna, ao escolher entre um bichinho de pelúcia ao outro, o presente mais novo ou o afetivo, remete à animação americana da Pixar “Toy Story”. Ao soltar um balão vermelha na Torre Eiffel, em Paris, inferimos ao media-metragem francês “O Balão Vermelho” (1956), de Albert Lamorisse. Pode ser apenas uma coincidência. Ou não. Mas esses momentos funcionam e enriquecem “Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa”, que ao longo da exibição precisa “correr” com a trama, fragmentando ainda mais estereótipos de xenofobia e de sobrevivência (roubar moedas-desejos da fonte), como a Madame que aluga o apartamento na cidade-luz. Nós também observamos outras referências temáticas um tanto distantes, como o brasileiro “O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger; o sérvio “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios”, de Emir Kusturica; o americano “A Menina Que Roubava Livros”, de Brian Percival; e, um pouco mais próximo, o brasileiro “Deslembro”, de Flávia Castro.

“Quando Hitler Roubou o Coelho Cor-de-Rosa” é também uma parábola. Uma litania de resistência com olhos modernos e mais comerciais. Uma combinação de dureza (cru) e de esperança. Um realismo editado que imprime coloquialismo informativo (sobre as eleições democráticas de Hitler por um povo nazista ávido por mudanças – o que é dito e propulsado). De Berlim a Zurich (na Suíça), de Zurich a Paris (França), de Paris a Londres (Reino Unido), nós somos convidados a participar (por contemplação de época, editada aos olhos reconfigurados da atualidade) de todas as adaptações que se transmutam em suas personagens a cada ação e a cada tentativa de lar.

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