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Quando Falta o Ar

Pornografia “do bem”

Por Pedro Mesquita

Durante o É Tudo Verdade 2022

Quando Falta o Ar

“Quando Falta o Ar” começa e termina com cartelas nas quais se pode ler: “O SUS é o sistema público de saúde brasileiro”. Que o filme sinta a necessidade de dizê-lo — duas vezes — nos ajuda a revelar o público-alvo ao qual ele se endereça: os desinformados (aqueles que não conhecem o SUS) e os adversários políticos (aqueles que o conhecem, mas o subestimam).

O filme representa um esforço de comunicação com um Outro diferente de mim. As diretoras, conscientes da importância do SUS para o Brasil, desejam repassar esse conhecimento àqueles que ainda não o obtiveram. Como acontece, então, esse processo?

A abordagem é heterodoxa: o filme se utiliza de algumas entrevistas, que são reproduzidas em off enquanto a ação se desenrola, mas o método predominante aqui é o do cinema-direto. A câmera se infiltra nos lugares retratados pelo filme (unidades do SUS de diversos estados do país) e acompanha as situações que se apresentam diante dela sem interferir no curso dos acontecimentos. Somos colocados praticamente no ponto de vista de diversos profissionais da saúde — a câmera segue as personagens quase à maneira de um filme dos irmãos Dardenne — a fim de testemunhar o duro trabalho que eles têm de fazer.

O que se almeja em “Quando Falta o Ar” é um esvaziamento da capacidade retórica do cinema. O filme pretende, sempre que possível, abster-se de “dizer alguma coisa”; abster-se de se intrometer na matéria bruta que acontece diante dele. As diretoras parecem apostar no fato de que o simples ato de ver as imagens será o suficiente para conscientizar aqueles dois grupos mencionados acima, os desinformados e os adversários políticos. 

Poderão as imagens de sofrimento — das quais o filme se recheia, sem pudor, do início ao fim — conduzir necessariamente o espectador à tomada de consciência; à valorização da ciência; ao humanismo; ao antifascismo? Ora, parece certo que não; para fazê-lo, o filme precisaria abrir mão de sua postura lacônica e oferecer um acréscimo de construção — fazer associações; explicitar as relações de causa e consequência dos fenômenos — à matéria filmada; donde observamos um grave descompasso entre os objetivos do filme e os métodos empregados para alcançá-los. Com a palavra, Bertolt Brecht: “A situação torna-se tão complexa pelo fato de que cada vez menos uma simples “reprodução da realidade” pode dizer algo sobre a realidade. Uma fotografia das fábricas Krupp ou da AEG não revela praticamente nada sobre essas instituições. […] É realmente preciso “construir alguma coisa”, alguma coisa de “artificial”, de “não-real””.

Essa abordagem superficial (não poderíamos chamar de outra coisa esse interesse exacerbado na aparência dos objetos em detrimento do estudo que enriquece a compreensão deles) acaba tendo, inclusive, o efeito oposto ao desejado, pois abstrai os fenômenos mostrados do contexto ao qual eles pertencem. “Quando Falta o Ar” não nos oferece nada além da experiência de assistir à morte se espreitando nos corpos doentes.

Sobre o ato de filmar a morte, vale sempre recordar os escritos de Jacques Rivette: “Existem coisas que só devem ser abordadas no temor e no terror; a morte é uma delas, sem dúvida; e como, no momento de filmar uma coisa tão misteriosa, não se sentir um impostor?”. As irmãs Petta sabem filmá-la com bastante sobriedade, isso é certo. Mas a crítica de Rivette — direcionada ao pavoroso filme de Gillo Pontecorvo sobre o holocausto, “Kapò” (1960) — também se aplica aqui. Qual a justificativa possível para a duração exacerbada dos planos de pessoas na UTI lutando por suas vidas que não a mera curiosidade mórbida? O desejo de transformá-las em conteúdo dramático para o cinema? Seduzidas pelo poder da câmera de revelar com enorme precisão mesmo os mínimos detalhes da realidade física, as diretoras fixam-na nos rostos dos doentes a fim de revelar-lhes toda a fragilidade. Recorrem ao voyeurismo e à pornografia para sensibilizar o espectador. 

Não se trata, é claro, de classificar um assunto como “irrepresentável” a priori. Mesmo o holocausto foi abordado por cineastas engenhosos — pensemos aqui em Alain Resnais e seu excelente “Noite e Neblina” (1956) —, que souberam integrar um suplemento de sentido à realidade filmada, de modo que o retrato estetizante da pilha de corpos nos campos de concentração não era um fim em si mesmo. 

Infelizmente, “Quando Falta o Ar” está mais para “Kapò” que para o filme de Resnais. Torçamos para que mais filmes apareçam, pendendo para o outro lado da balança.

1 Nota do Crítico 5 1

Trailer

Pílula

 

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