Praia da Saudade
Um futuro ancestral
Por Pedro Sales
Existe um mito de que a palavra “saudade” e seu sentido só existem na língua portuguesa. No gaélico, porém, o vocábulo “hiraeth” é tido como tradução exata. Etimologia à parte, fato é que essa palavra e seu sentido agridoce é prontamente assimilada pelo brasileiro que sente saudades de tempos melhores, pessoas queridas e qualquer outra coisa que lhe provoque aquele característico aperto no peito. Em “Praia da Saudade“, reflete-se um pouco sobre como esse sentimento é algo muito próprio nosso. O longa da diretora Sinai Sganzerla, filha de Helena Ignez e Rogério Sganzerla, detém-se sobretudo no resgate histórico não como saudosa lembrança, mas mecanismo para reflexão das transformações climáticas enfrentadas. O documentário também pontua como relações de exploração contra povos indígenas e a desigualdade fomentam o caos ambiental que se prostra diante de nós.
Este documentário certamente engana o espectador mais desinformado. Sem ler a sinopse, como de praxe faço, fui surpreendido pela “virada” que o filme dá. A Praia da Saudade que dá título à obra foi uma praia localizada na Urca, bairro do Rio de Janeiro. O documentário dá todos indícios de que examinaria historicamente as mudanças na praia e o processo de privatização que culminou no aterramento para construção do Iate Clube do Rio de Janeiro. E de fato isso acontece, mas a obra não se restringe a este momento. A mais de 300 km dali, está a praia de Atafona, localizada em São João da Barra (RJ), o novo foco visual da obra. Desde as décadas de 60 e 70, as águas do mar avançam para cima da cidade, colecionando ruínas e areia que avança para casas e estradas. Enquanto as imagens desses lugares aparecem na tela, juntamente de acervo pictórico que ostenta figuras, pinturas, fotografias e gravações antigas, a narração é conduzida pela ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, e pelo neurocientista e biólogo Sidarta Ribeiro.
Nesse sentido, “Praia da Saudade” torna-se um título ambivalente e polissêmico, com vários sentidos, por abordar dois lugares fundamentalmente diferentes, mas que igualmente sofreram transformações. Pode-se apontar a praia do início do documentário, que de certa forma foi transformada pelo capital, deixou de existir por interesses econômicos, ou também apontar para Atafona, uma região que lida há pelo menos 50 anos com as mudanças climáticas e as intempéries da natureza. Saudades de quando não era assim, de quando se podia viver naquele lugar, de quando as ruínas eram chamadas de lar. O caráter reflexivo que se depreende dos planos e da narração espaçada é onipresente durante a rodagem, e o trabalho sonoro contribui para isso. Sinai Sganzerla usa o som como espinha dorsal mesclando trilha sonora a outros sons, como dos barcos, de espadas, de ritos religiosos indígenas e de religiões de matriz africana. Até o silêncio contemplativo é preenchido pela música, responsável por conduzir o espectador pelos pensamentos dos narradores
Da mesma forma que existe o contraste social pontuado pela Praia da Saudade e de Atafona, a cineasta também amplia o contraste para o campo histórico, primeiro em um aspecto visual e posteriormente narrativo. Os planos aéreos feitos com drones dão vez a pinturas de Debret e Taunay, imagens de arquivo e gravações da época. O visual se associa também às narrações de Guajajara e Ribeiro, que apesar de serem eixos narrativos um pouco distintos, são complementares. No fundo, ambos falam sobre a exploração e dominação como indutores de mazelas naturais. Assim, por muitos momentos o filme soa como um ensaio, uma profusão de ideias em um fluxo de consciência, mas sempre com as devidas associações visuais. Por este motivo, os comentários por vezes parecem dispersos, aforismos que não se conectam, pelo menos à primeira vista. Ao fim, as reflexões dos dois narradores se completam para o sentido maior do longa: a discussão das mudanças climáticas e das possíveis soluções para o futuro.
“Praia da Saudade” é um documentário poético atento a questões muito caras à sociedade. Sinai Sganzerla costura os dois discursos dos narradores para refletir e provocar o espectador acerca da relação entre dominação e destruição ambiental que fomenta a mudança climática. Os pensamentos e divagações retomam a história brasileira e outras ainda mais antigas como a ruína dos astecas e incas associada imageticamente com as de Atafona. As imagens também habilmente articulam esse contraponto entre passado e presente. Mas de tudo, o que mais se sobressai é o som. A diretora, que inclusive assina o trabalho sonoro, preenche os silêncios da narração com a amálgama de sons, da trilha implacável “Also Sprach Zarathustra” à voz inconfundível de Rita Lee retornando a cantos mais antigos, indígenas, ancestrais. Portanto, a solução apontada por Guajajara e Ribeiro é rumar para um futuro ancestral, resgatar práticas antigas para manter a sobrevivência humana. Retomar o saber antigo para direcionar ao futuro.




