Por Trás da Muralha de Tijolos Vermelhos

A imagem cosmopolita

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

“Por Trás da Muralha de Tijolos Vermelhos” exibido no 10º Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, o documentário de Hong Kong Documentary Filmmaker reflete uma questão contemporânea de maneira bastante direta. O longa, realizado por uma série de pessoas que preferiram permanecer no anonimato por acreditarem em uma possível retaliação política, parte de uma completa falta de contextualização com o objetivo de reafirmar que os registros expõem um fato nele mesmo. Recentemente, durante o CineBH, o filme de abertura ia de encontro a esse tipo de categorização, acreditando em uma totalidade acima da própria imagem.

O que ocorre no projeto dos cineastas aqui, é uma montagem das múltiplas câmeras que registraram o confronto da polícia com manifestantes na Universidade Politécnica de Hong Kong, sem que possamos compreender nem mesmo as reivindicações a fundo. Alguns gritos revelam isso aos espectadores: “democracia”, “liberdade”, “fim da polícia”, “esquerdo-burro”, entre outros termos vão se amontoando o espectador é colocado diante de uma manipulação explícita que procura o encaixe de termos chaves para os espectadores de todo o mundo. É como uma notícia superficial que não detém nenhuma informação, pois durante quase noventa minutos, o caos e a confusão imperam. Podemos ver a reunião dos estudantes, a repressão policial e os conflitos, mas nunca o contexto. Para parte dos espectadores que decidirem assistir “Por Trás da Muralha de Tijolos Vermelhos”, a própria menção à HKSAR pode causar uma confusão imensa. O curioso é que para um filme de denúncia internacional, com sua transa explícita com o governo britânico (elogiando a própria mídia europeia por estar filmando o confronto), a coisa toda não fornece nenhum debate em si.

Não explica nem mesmo o que é a Universidade, palco político das situações registradas. A Universidade Politécnica de Hong Kong, situada na Região Admin. Especial da China, é uma instituição que forma mão de obra especializada nas áreas de turismo, hotelaria, empreendedorismo etc. No site, é possível encontrar uma série de informações, que defendem um cosmopolitismo universalizante. Parte da razão do conflito, jamais mencionado no documentário, começa a ganhar corpo aqui. A mera menção à “democracia”, “liberdade” e “esquerdo-burro” não dá conta durante a projeção. Assim, quando o longa decide partir da imagem como auto suficiente, assume que a notícia é uma bala de prata que deve ser compreendida em via única como “repressão policial”, “abuso de poder” entre outros males que o Sul Global compreende bem. Ainda que parte de suas denúncias possam ser assimiladas, compreendidas, o negócio todo é explicitamente supérfluo em si. E aqui, não podemos falar de uma inconsciência, tudo é construído com uma intencionalidade expositiva, é uma obra histórica no sentido que junta uma série de registros, sem uma autoria particular, e utiliza-se das imagens com um caráter político explícito, verdadeiramente propagandístico. Será citada por alguns anos, quando não copiada. Alguns países já podem vir à mente.

Se “Por Trás da Muralha de Tijolos Vermelhos” pode servir para que o público possa assistir o confronto de perto, irá esvaziar as opiniões na brutalidade do frenesi de cada imagem. A falta de contextos, breves abordagens históricas e exposições do próprio conflito político, homogeneiza a repressão de maneira universalizante, reformula o medo a partir da base imediata de todo conflito: a violência em si. Nesse sentido, poucas coisas aqui diferem da construção ideológica que tomou a imprensa a fim de criar relatórios impessoais, inflados por uma formalismo que procura atingir uma base do irracional. É a desmaterialização, descontextualização, que transforma o barato todo em uma construção que não consegue se sustentar até o fim. É um braço cosmopolita que não procura nem mesmo dar o mínimo para que o espectador do mundo todo (seu grande público alvo), possa compreender o que está em jogo ali. Diversos textos irão se debruçar em torno das expressões, tempos e historicismos, criando paralelos na própria forma, para quem sabe retornar a velha dicotomia com o conteúdo, tão infrutífera quanto décadas atrás.

Trailer

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