Por El Diñero

Pequena Gema latina

Por Vitor Velloso

Durante o CineBH 2019

A Pampero Cine já conquistou um lugar singular na produção latino americana, com um estilo próprio e produções que se situam no limiar do mercado. “Por El Dinero” de Alejo Moguillansky é uma prova que a maturidade leva a projetos ainda mais ousados narrativamente, sem complicar, demasiadamente, ao público, em forma. A trama é absolutamente enrolada em conjunturas que se resolvem com absurdos ainda mais inexplicáveis. Com essa proposta Alejo realiza um longa que se destaca dos demais no CineBH 2019, pela sua proposta fragmentada e que se divide em duas linhas temporais, com uma forma que incorpora o digital de maneira a favorecer sua construção narrativa.

E essa sólida proposição do filme, traz um acréscimo importante para o vigor cômico presente na obra, compondo uma versatilidade entre os gêneros inseridos, pois inicialmente temos trama de assassinato e a investigação vai se iniciar, logo, há um ensaio de suspense que se instaura, que é quebrado com a encenação humorística singular. Tal viés parte de longos planos, diálogos espaçados, por vezes sem sentido e uma caracterização dos personagens que foge o padrão. A aposta é arriscada, pois se não funcionar para o espectador, irá gerar intensos vácuos na experiência. Contudo, conforme “Por El Dinero” exprime sua capacidade de se adequar a diferentes momentos da narrativa, fica claro desde o começo estarmos acompanhando uma tragicomédia, já que as primeiras cenas se passam após a morte de dois personagens, tendo como ponto de partida tal conflito, a estruturação realizada pelo diretor deixa claro que as resoluções do mistério serão de uma compreensão dramática pouco pragmática, muito menos clássica.

Porém, contrário do que pode se pensar, não há graves contornos na diretriz da história, a ação direta é priorizada e destacada por planos obstinados em transmitir o processo dramático como uma fricção de momentos e cenas, não à toa, conforme há o progresso, o espectador se situa em blocos tão distintos um do outro que gera uma certa expansão do espaço e do tempo, ainda que tudo esteja colocado de maneira objetiva. Durante uma sequência, onde vemos o protagonista, interpretado por Matthieu Perpoint, andar de bicicleta e ajudar sua trupe de atores, assim temos uma crônica tão sincera quanto à paixão ali encenada, que o objeto imagético se torna poesia por sua simplicidade de tom prosaico, ao mesmo tempo, a voz em off do ator com um tom pouco esperançoso em sua condição, cria uma ambiguidade à cena que a torna um mar de sensações divergentes que acrescente muito à obra.

Os atores se inseriram no projeto a adicionar um ambiente que seja cordial e familiar a todos que escolham adentrar na experiência irão sentir-se acolhidos pelo espírito festivo da trupe. Tal situação ajuda a imersão inventiva da misancene (versão brasileira Herbert Richers) do diretor e seu jogo coreografado dos corpos em suas situações naquela estrutura temática teatral, em seu espaço-tempo. Nessa perspectiva de inserir a dança absurda da trama que não se sustenta em uma lógica que respeite a vida real, o filme caminha para o lúdico conforme a projeção se aproxima do fim. Ao chegarmos na ilha paradisíaca, se inicia um ciclo vicioso de vertigem temporal, neste momento o ritmo decai gravemente e pode perder parte do público para sua conclusão.

Essa decisão, sem dúvida, afasta um pouco o espectador da construção narrativa que ele se propõe. Assim, ao nos aproximarmos do fim, a contextualização torna-se precária em termos de finalização do clima imposto. “Por El Dinero” da El Pampero Cine é um projeto que traduz perfeitamente o espírito da produtora e conduz a trajetória da mesma de maneira ímpar, lançando às telas uma experiência ímpar que se traduz em uma pequena pérola da filmografia argentina, que deve ser perpetuada na história e marcar época. O diretor aplica a estética digital com uma precisão cirúrgica que marca o cinema latino-americano e ensina os países a compreender e incorporar tal produção à uma forma narrativa que absorve o contemporâneo.

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