Ponto Cego | Revisão

Revisão de um novo clássico

Por Vitor Velloso

Em 2018 eu assisti “Ponto Cego” de Carlos López Estrada e fiquei estarrecido com a potência de determinadas cenas e o impacto que aquilo me gerou ficou na memória por anos, agora em 2020, decidi re-assistir ao filme e abrir uma nova leitura. 

Rever ao longa de Carlos me revelou uma maturidade cinematográfica precoce no cineasta, a maneira que a condução narrativa se escala para uma catapulta de palavras e um expurgo de uma sociedade é realmente…genial. 

Desde a primeira cena é possível reconhecer uma deturpação da ordem formal aqui. Três homens estão dentro de um carro, dois negros e um branco, o jogo de câmeras salta de um para o outro, em close-up, pro geral, onde o diálogo se afunila à violência sob as luzes neon. A ostentação de armas, dá ao espectador o primeiro tom da história, não queremos estar aqui, pois já fomos avisados que o protagonista não pode se dar ao luxo de cometer nenhum deslize legal, caso contrário, retornará a cadeia. A partir daí um breve parênteses de como a sociedade de Oakland está se modificando à sua maneira, seja na cultura e hábitos alimentares. Primeira cena de masculinidade tóxica, a violência como meio de extrapolar à necessidade se reconhecer dentro do ambiente em que a convivência tornou-se a própria vida, o conservadorismo daquela estrutura. Um homem branco protagoniza-a. 

Um travelling que enquadra os dois homens, um homem negro (que improvisa versos de um rap) e um branco, por uma breve passagem pela geografia da cidade, o externo já não nos é interessante, mas sim o quadro. Temos o título do filme. Eu explico depois. 

Saltando um pouco adiante, uma cena com iluminação vermelha de um semáforo, a inquietação do protagonista, o sinal abre, ele acelera, um homem negro cruza seu caminho, olha em seus olhos, escutamos um grito de “Pare”, ele corre, um policial branco surge no quadro, quatro tiros (não cabe discorrer sobre isso neste espaço, mas é o mesmo número de disparos em Marielle Franco), o negro cai, outro policial manda o protagonista seguir seu caminho. Ele sai do carro, olha assustado para a câmera. Negro correndo. 

Aqui já temos toda a estrutura narrativa apresentada, uma sociedade violenta, racista, bem no coração dos EUA, Oakland. 

A partir daí vemos em correria panorâmica uma espécie de gentrificação da cidade, uma perda de característica a partir de um auto imposto imperialismo norte-americano. Cada cena possui uma estrutura sólida, a partir do drama que é escrito pelos atores que interpretam os protagonistas, Daveed Diggs e Rafael Casal.

Uma breve situação onde um fotógrafo apresenta seu trabalho, sobrepondo às suas fotografias um carvalho em meio à paisagem. A mesma ideia retorna em alguns planos no futuro, a diferença é que o enquadramento não inclui um carvalho, mas sim um caminhão de mudanças, empresa para qual trabalha o protagonista Collin e seu amigo Miles. O mesmo artista propõe um exercício de trocar olhares e enxergar aqui que está além da vista, a tarefa dura alguns segundos e o branco a interrompe para fazer uma brincadeira e tocar o peito de Collin. Temos aqui a segunda apresentação do título. O mesmo refere-se diretamente à um diálogo onde uma aspirante à psicóloga dá o nome de “Ponto Cego” para o vaso de Rubin (figura composta de preto e branco, onde é possível enxergar dois rostos ou um vaso negro no centro, nunca os dois ao mesmo tempo). A partir do próprio pôster e dessas cenas deslocadas, compreende-se que a sociedade (aqui a norte-americana) é incapaz de compreender um espectro mais amplo que a dualidade que separa as duas etnias. O mesmo está explícito em Miles, que não consegue enxergar a diferença de sua vida para a de Collin, pois ambos são “negões” (tradução livre da própria legenda do filme, referente à palavra “nigga”), mas Milles, o branco, jamais chama seu colega desta maneira, por um enraizamento social que está exterior às suas atitudes. 

E a partir deste conceito, um dos melhores diálogos da última década surge. Uma provocação onde se enxerga a distância social que há entre duas pessoas de etnias diferentes, mas de classes e hábitos sociais próximas (caminho oposto do reacionário “Green Book”). É onde mora o perigo, essa autoafirmação da marginalidade a partir de uma estrutura econômica e social, que ignora por completo o tom de pele que os difere, não porque são distintos, mas porque a polícia escolhe onde mirar. E aqui surge outra discussão de enraizamento, à lá o carvalho de Oakland, onde em um dos momentos finais, ao enfrentar o próprio algoz, Collin ,em rimas de rap, fuzila a verdade de uma História até então apagada, destrói os símbolos patriarcais da família norte-americana e pergunta ao policial assassino “Você contou quantos anéis ele tinha?” (em referência à quantidade de anéis que há em uma madeira de carvalho). 

Outro monumento cinematográfico que surge durante a projeção de “Ponto Cego”, está em uma cena de tribunal, onde luzes azuis e brancos, como sirenes de viaturas, iluminam o local, o negro algemado não consegue falar, todos no tribunal são negros e estão algemados, o branco acusa, o policial assassino julga. A estrutura de “Juiz Dredd” é uma realidade que se vê todos os dias. 

Em um momento no futuro, o jogo formal da imagem cinematográfica torna sublime, formalmente, aquilo que há de mais grave na sociedade norte-americana, uma viatura decide jogar luz no rosto de Collin para averiguar quem é o negro que anda na rua à noite sozinho. A luz do suspense clássico da Trumpland, Hitchcock é revivido como viatura, a luz entrecorta o plano, enquadra o negro contra a parede, projeta sua sombra como cinema e expõe ele ao perigo, por algo que não fez, nem precisa. Minutos após ele explicar para Miles que “Eu não sou o negão que eles tão procurando, é você!”, o protagonista está denunciando que a imagem que se constrói do negro nos EUA, nada mais é que a violência que encontramos em Miles. 

O pavor que a cena constrói a partir de planos longos, com o som de sirene e o silêncio mórbido, é a fixação pelo real, uma arquitetura imagética que nos remete à tudo aquilo que a cultura transformou em comum, o enquadro, o cinema projetando luz de viatura ao negro, o fechamento de íris invertido à Griffith, não a ausência de luz, mas o poste de luz de um carro de polícia, que mira um homem negro inocente. 

“Ponto Cego” trabalha à frente de sua discussão, está elevando a mulher negra como centro dos planos, a matriarca de uma desenvoltura que se fecha em torno de suas atitudes, utiliza zooms em homenagens explícitas ao blackexploitation.

E quando parece que haverá uma reconciliação do homem negro com o branco, essa atitude está enclausurada em dois indivíduos que se compreendem à margem da sociedade e a pergunta de Miles à Collin: “Você está bem?”. “Não” ele responde. Não há revisionismo social, a luz verde se abre dividindo quadro com uma placa de “sem retorno”, o caminho para o “Ponto Cego” que Val (Janina Gavankar) comenta em um momento, o vaso de Rubin é a metáfora necessária para que estes dois homens possam vir a se enxergar. Os planos unem os dois, os confunde, mas em um dos momentos mais delicados, filma os dois falando da ausência paterna em uma casa que perdeu toda sua memória. 

Temos aqui uma pequena grande pérola. Um novo clássico que deveria estar ao lado da filmografia de Jordan Peele e Spike Lee.

Trailer

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