Plínio Marcos Nas Quebradas do MundaréuPlínio Marcos - Nas Quebradas do Mundaréu

Faltaram quebradas nesse mundaréu

Por Marcelo Velloso

Semana Cavídeo 2019

 

O documentário “Plínio Marcos nas Quebradas do Mundaréu” é dirigido por Julio Calasso e consiste na compilação de trechos de encenações de algumas das grandes obras do autor, tanto para o teatro como também para o cinema, além de depoimentos e trechos de entrevistas dadas pelo próprio dramaturgo. Podem ser vistos no filme trechos de algumas das suas principais obras: Navalha na Carne, Dois Perdidos numa Noite Suja, O Abajur Lilás, Barrela e Querô.

Em “Plínio Marcos nas Quebradas do Mundaréu” (2019), há depoimentos de diversos profissionais que de alguma forma trabalharam com alguma obra do autor, como Pedro Bandeira, Neville d’Almeida, Tônia Carrero, Emiliano Queiroz, Sérgio Mamberti, Nelson Xavier, Walderez de Barros, Antônio Carlos Fontoura, dentre outros. O título do documentário faz referência ao vinil LP “Plínio Marcos em Prosa e Samba, Nas Quebradas do Mundaréu” lançado em 1974 pelo próprio junto com os sambistas Geraldo Filme, Zeca da Casa Verde e Toniquinho Batuqueiro.

Tal disco é considerado extremamente importante no estudo do samba paulista. Nem todos tem conhecimento da relação de Plínio Marcos com o samba paulista e quem tem, ao ler o título do documentário, pode esperar que o enfoque seja esse, o que não acontece. Isso já fica claro nos primeiros momentos do filme, quando cansativamente são exibidos trechos de montagens de “Navalha na Carne” no teatro e no cinema. O samba paulista até é abordado no filme, mas longe de ser o enfoque principal.

O documentário se inicia com a inclusão de um trecho do texto que é declamado pelo próprio Plínio Marcos na introdução do LP supracitado, o “Plínio Marcos em Prosa e Samba, Nas Quebradas do Mundaréu”, paralelamente são exibidas imagens de uma estrada feitas a partir de um veículo. O texto é uma ótima introdução e tem profunda relação com o universo que o autor retrata em suas obras: do gueto, de um povo marginal, do sentido “que vive à margem” mesmo, do periférico. Num primeiro momento veio a indagação do “porquê” das imagens iniciais serem numa estrada repleta de verde nas laterais, não faz muito sentido.

Diversas inclusões musicais são feitas sobre imagens e ajudam a transformar o documentário numa bela homenagem ao Plínio Marcos. O filme traz também performances musicais ao decorrer do filme. São boas as escolhas musicais que vão de “Viramundo” de Caetano Veloso e Capinam interpretada por Gilberto Gil ao samba enredo da Escola de Samba X9 Santista, do carnaval de 2008, quando a mesma se sagrou campeã com um enredo sobre o Plínio.

Inicialmente “Plínio Marcos nas Quebradas do Mundaréu” parece que vai seguir para a análise das principais obras do autor, num viés de traçar os perfis de suas personagens. Os trechos de encenações diferentes de “Navalha na Carne”, com enfoque nos personagens Nelsa Sueli e Vado, somado aos depoimentos geram essa primeira impressão. No entanto, depois de certo tempo, percebe-se que esse também não consiste no objetivo do filme.

Os pontos altos do documentário são: os trechos das entrevistas com o Plínio Marcos e os depoimentos de Tônia Carrero, Sérgio Mamberti, Emiliano Queiroz, Nelson Xavier, do seu filho Leo Lama e da atriz Walderez de Barros, com quem teve 3 filhos. Esses momentos tendem a prender mais o público por trazerem momentos “patrimoniais” da relação desses com o Plínio ou com a sua obra. Com tantos bons depoimentos, a quantidade de cenas das obras do autor do início do filme torna-se demasiada e desnecessária.

É impactante o momento em que se fala das suas peças embarreiradas de serem encenadas na época da ditadura militar. A atriz Walderez de Barros, fala da sua frustração por ter vivido a experiência de ter trabalhos seus que demandaram de tanta preparação não seguirem em cartaz por conta da censura. O samba paulista finalmente é abordado no corte final do filme, trazendo depoimentos de Carlão do Peruche, Silvio Modesto e nos apresentando o Plínio amante do samba paulista. O aprofundamento nesse universo era o mais esperado do documentário, considerando o título, mas não passa de dez minutos.

“Plínio Marcos, nas Quebradas do Mundaréu” até nos apresenta o universo do escritor com os inúmeros registros que exibe, mas trata-se de uma cinebiografia rasa. Faltam mais histórias sobre o autor que teve tantos outros papéis na sua existência, além de dramaturgo: funileiro, jogador de futebol, soldado, jornalista, palhaço de circo e produtor de circo. Há muita coisa interessante pra explorar e grande parte do filme se perde com trechos de cenas que pouco tem a dizer. Faltaram quebradas nesse mundaréu.

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