Pequena Garota

Amadurecendo na hostilidade

Por Fabricio Duque

É curioso que em “Pequena Garota”, estreia da semana nos cinemas brasileiros, já esteja normalizado organicamente os limites fronteiriços entre documentário e ficção, mas não a liberdade de uma transexual em ser o que quer ser (e o que já nasceu sendo), este precisando de uma “aprovação” para existir socialmente em 2020. O filme em questão aqui é e precisa se comportar pelo didatismo. Informar, “mastigar” e comprovar por um atestado declaratório médico de que esta pequena garota, nascida como garoto, possui uma disforia de gênero. O roteiro nos conduz por uma luta diária para legitimá-la como indivíduo “apto” a viver “igualmente”. Sim, esses pensamentos são cruéis, desumanos, surreais, antiquados e de retrocessos ao antes dos preceitos morais civilizatórios. Diz-se porque a “campeã” de preconceitos racistas e de transfobia, a escritor inglesa J. K. Rowling, famosa pela saga “Harry Potter”, alimenta diariamente a hegemonia conservadora de brancos, héteros e “normais”. Pois é, o mundo mudou. Até o humorista Fábio Porchat no programa “Roda Vida” disse que é um “racista em desconstrução”.

Exibido no Festival Mix Brasil 2020, “Pequena Garota” não é só sobre a história de um menino que quer virar menina. Sacha, a protagonista com sete anos, desperta o questionamento empírico de “não se importar tanto com a vida alheia”. A narrativa-cotidiano quer ambientar uma atemporalidade sensorial, convidando o público a estar junto da epopeia subjetiva de uma criança, que cresce antes do tempo ao ter contato com a hostilidade do mundo (e a exclusão no balé). O documentário acompanha uma história pelo estudo de caso a fim de falar de todas as trans que passam pelas mesmas dificuldades, distanciamentos, impedimentos e “permissões concedidas”. A estrutura do filme busca semelhança no cinema-direto-social dos Irmãos belgas Luc Dardenne e Jean-Pierre, amalgamando  humanismo e pragmatismo burocrático das “agremiações” em que se vivemos. A câmera sempre está próxima, na mão, na ação e no limite, à moda do movimento dinamarquês Dogma 95, de Thomas Vinterberg e Lars von Trier. Tudo visa a espontaneidade por uma imersão situacional de vida acontecendo: contemplações da imagem, observações estendidas pela captação espreitada e contrapontos com a veloz fragmentação picotada da edição. Nós somos inseridos na busca-essência de uma existência. Na exposição de uma família que optou pela verdade do lá fora ao invés de se esconder nos refúgios protetores do cá dentro.

“Pequena Garota”, realizado pelo parisiense Sébastien Lifshitz (de “Lado Selvagem”, “Os Invisíveis”), também é uma análise crítica aos “adultos”, maliciosos e limitados em suas definições. Os “pequenos” nascem com o livre-arbítrio das opiniões, cuja personalidade é moldado pelos conceitos receptores. Quando esta família acredita, permite, aceita e se empenha em dar um futuro arco-íris a sua “cria”, o ciclo de ódio-violência dos pré-julgadores é reiniciado emocionalmente e a criança em “problema” poderá só se preocupar com as questões mais comuns que todo e qualquer ser humano passa: escolher uma profissão, para qual lugar quero viajar etc. Outros filmes atuais podem embasar  e intrincar a temática foco desta análise: “Alice Junior”, de Gil Baroni; “Maria Luiza”, de Marcelo Díaz; “Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos, são alguns.  E outros “héteros” como “Pequena Miss Sunshine”, de Valerie Faris e Jonathan Dayton (que gera o mesmíssimo efeito). Cada um deles, entre inúmeros outros que pipocam pela urgência-necessidade de se afirmar socialmente, mostram que nosso contemporâneo comporta-se atrasado demais (em uma caverna primitiva a la “Croods”).

O Brasil é o país que mais assassina transexuais. Ter alguém diferente para olhar assusta e causa uma reação de que é preciso “apagar”. Mas qual o motivo de tanta “crença plural” que impede a equidade humanitária? Ainda há espaço para afetos ou é “coisa de viadinho”? Ou impedir que vítimas, jogadores de futebol, de racismo estrutural reajam com xingamentos homofóbicos e/ou que torcedores continuem expressando “crimes verbais” como uma normal cultura popular? O que há de errado em ser livre, prostituta e gay? Talvez a nova animação da Pixar, “Soul”, disponível no plataforma digital Disney Plus, possa indicar uma ideia-causa-começo na cena em que a Pré-Vida seleciona almas em construção moral e as envia para o “setor dos egocêntricos”. Eis que outro “funcionário” rebate: “Você não está mandando muitas almas para lá não?”. Quanto mais pensamos sobre tudo isso, menos temos respostas. Será que os errados são aqueles que se importam com o mundo melhor? Será que os certos são os que não usam mais máscaras durante a pandemia mundial do Coronavírus? Será que devemos viver intensamente cada dia como se fosse o único? Neste exato momento, as perguntas são retóricas e apenas “brainstorming”. Assim, “Pequena Garota” é tão obrigatório e os discursos, inicialmente ingênuos e datados, ajudam a andorinha Sacha a fazer verão e um futuro mais digno. Somos todos Sacha!

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