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Pegando a Estrada

Estamos sendo seguidos

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2021

Pegando a Estrada

São poucos os filmes, como acontece em “Pegando a Estrada”, que se definem por uma breve fala logo no início, lânguida, porém carregada de inquietação: estamos sendo seguidos. Estamos, registre-se, deslizando numa estrada a oeste de Teerã, a caminho de algum lugar, indefinido, que se revela como zona fronteiriça, possivelmente com a Turquia. O carro é um SUV alugado, Sport Utility Vehicle: veículo utilitário esportivo, porte avantajado, além de interior espaçoso e possibilidade de trafegar dentro e fora da cidade. Uma família absolutamente ordinária divide o espaço a um só tempo amplo e claustrofóbico do SUV – pai (Hassan Madjooni), com a perna engessada; mãe (Pantea Panahiha), ligeiramente ansiosa; filho de 20 anos, que dirige o veículo (Amin Simiar); e o caçula, de seis anos, incansável e anárquico (Rayan Sarlak). O garoto dedilha no teclado desenhado no gesso do pai – na trilha, Schubert, fielmente sincronizado. Na sequência, a mãe cantarola uma canção pop iraniana pré-aiatolá, anterior portanto à fundação da República Islâmica do Irã, cuja constituição de 1979 estipulou que as relações políticas, econômicas, sociais e culturais vigentes no país devem estar de acordo com o Islã. Conforme relatórios internacionais, o histórico de direitos humanos no Irã é notoriamente ruim – o governo persegue e prende com frequência críticos do governo e de seu Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, além de restringir a participação de candidatos que se opõe ao regime em eleições populares e outras formas de atividade política. Um dos focos dessa repressão é, hélas, o cinema: Jafar Panahi, cineasta de “Taxi” e outras pérolas, foi preso no último dia 11 de julho, quando visitava o Ministério Público local com advogados e colegas para perguntar sobre o bem-estar e o paradeiro dos colegas cineastas Mohammad Rasoulof e Mostafa Aleahmad, detidos três dias antes. Jafar, que ganhou prêmios nos festivais de Veneza e Berlim, foi condenado a seis anos de cadeia. Já havia sido sentenciado em 2010, mas conseguiu liberdade condicional, embora impedido de sair do país e banido de dirigir filmes por vinte anos – mesmo assim, realizou “Taxi”, em 2015, unofficially.

Pois o realizador de “Pegando a Estrada”, lançado em 2021 na Quinzena dos Realizadores em Cannes, chama-se Panah Panahi e é filho de Jafar: este é seu primeiro longa-metragem, aos 38 anos de idade. Por um dessas razões que a própria razão desconhece, um regime autoritário como o iraniano é capaz de dar vazão a uma linguagem cinematográfica moderna e sutil, veiculando uma atmosfera política pesada em estado latente, quase imperceptível, mas presente. O ponto de inflexão é o caçula: é a ele que os pais não podem contar o motivo da viagem, a despedida do irmão, prestes a sair do país por motivos não revelados, suficientes para que a família gastasse o que tinha e não tinha para pagar a viagem: perdemos nossa casa e vendemos nosso carro para que ele pudesse sair, um dos pais chora para o outro. Jessy, a cadela da família, em estágio avançado de doença incurável, é outro dos segredos guardados para o caçula – o olhar que reproduz essas percepções difusas é tragicômico, próximo e distante. À medida em que nos aproximamos da fronteira, os acontecimentos se dispersam, a lente abre: em um momento de negociação difícil da mãe com os guias locais da travessia, o plano é aberto ao máximo, a paisagem é  soberba, mal identificamos as silhuetas dos personagens no fundo da imagem – e o som estridente do garoto, igualmente quase imperceptível próximo a uma árvore solitária na encosta, atravessa o espaço. Perda e imediaticidade sintetizadas numa tomada, daquelas que o mentor de Panah, Abbas Kiarostami, oferecia aos seus espectadores.

Road movies, carros e crianças, aliás, são recursos conhecidos de Kiarostami e Jafar Panahi, que o diretor de “Pegando a Estrada” resgatou à perfeição. Senso de humor seco e rebeldia, também. O drama da perda e a energia da vida que se renova. Sempre que você ver uma barata, diz o pai, lembre-se de que seus pais a enviaram ao mundo com muita esperança. Pai e filho ligam as viagens da família a uma discussão sobre o valor depreciado do Batmóvel arranhado, e a mãe engata um karaokê do pop iraniano, sincronizando labialmente palavras proibidas pelo Islã. A mãe esconde o choro: pai e filho acabam se misturando às estrelas que pontilham a escuridão do universo.

5 Nota do Crítico 5 1

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