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Pearl

Um amor puro...

Por Giulia Dela Pace

Pearl

O puro e o casto são sempre muito bregas, mas ótimos mesmo assim em diversos contextos. E a prequela de “X: A Marca da Morte”, “Pearl” – de Ti West –, é breguíssima. Mas é da pureza que saem os mais animalescos sentimentos, os mais obscuros e originários dos seres humanos. O diretor do novo longa, Ti West, e a protagonista e produtora Mia Goth mergulham de cabeça novamente, e ainda mais profundamente, no cerne do cinema e tentam compreender o que ele é através do terror, slasher e pornô. Tem mais cinema que isso? Só, talvez, os poderosos filmes de Kung-Fu.

Mas a estética desse filme, ao invés do clássico slasher de “X: A Marca da Morte”, é um clássico água com açúcar dos anos dourados de Hollywood. O que quando misturado com terror psicológico, toxicidade em ambiente familiar e uma sexualidade que transborda tudo e todos, torna o filme muito mais primitivo e fisiológico, pois atinge também o plano dos desejos e ambições profissionais e pessoais da protagonista. Assim, o longa brinca com essa estética conservadora e plastificada dos clássicos hollywoodianos e distorce a realidade da narrativa para deixá-la da forma mais perturbadora possível.

Daí entra Mia Goth, pois, ainda que interprete apenas uma personagem nesta prequela, constrói duas complexas personalidades. Ou até mais. Vemos uma primeira Pearl com apenas leves traços de uma personalidade forte, psicótica e primitiva, mas majoritariamente com características infantis e “inocentes”. Mas quando o cinema mostra a ela suas ambições quadro a quadro e os movimentos que Pearl tanto anseia em uma tela/palco com refletores e aplausos, ela muda. Então, Pearl se liberta parcialmente de correntes que a deixavam presa em uma condição de sonho inconsciente e agora ela entra em transe acordada.

Em “Pearl”, a protagonista se liberta através de sua sexualidade, do toque. Ela pratica o que é “proibido”, ela mente, trai e engana, dessa forma vemos uma personagem que contradiz todos os estereótipos de uma heroína, mas com certas características comuns às femme fatales, por exemplo – mulheres que eram tidas como perigosas e vilãs nos filmes da era de de ouro de Hollywood. Ainda sobre o estilo “engessado” do filme que se mescla com o certas travas dos clássicos e o slasher, ou mesmo do terror: a quebra das amarras de Pérola ao final torna a obra um completo show sangrento e macabro. Um terror profundamente perturbador que é genial, pois carrega até certa potência humorística com letreiros e músicas “perfeitas” e cores bonitinhas em meio ao vermelho super saturado de sangue.

Desse modo, a ambição estilística de Ti West para a sequência de filmes dialoga entre si. Enquanto a personagem Pearl idosa de “X” tem sua ambição nas dançarinas, Maxine tem nas atrizes pornôs, além de ambas quererem ser estrelas. E as personagens de Mia Goth se conectam. Então, o desejo sexual é novamente uma ferramenta de linguagem para traduzir anseios, angústias e resgate de vontade e da juventude. Uma profunda análise psicanalítica das personagens é feita pelo cineasta e por Mia – sua parceria criativa. Aplicada em clichês, mulheres comuns e estereotipadas, Pearl é Maxine. Isso é cinema: um espelho de algo que não necessariamente é visto se não for apontada uma câmera para essa realidade específica e enquadrada por um olhar subjetivo daquele, ou daquela, que observa.

Um ponto interessante ainda foi o desenvolvimento, por incrível que pareça, da crocodilo. No primeiro filme, ela é a parte que nunca envelheceu de Pearl, o que vem a calhar com a fisiologia desses animais. É nesse bicho que ela espelha sua raiva, sua natureza predatória e, especialmente, sua feminilidade, pois é com quem ela se abre e onde ela desconta seu ódio de ser mulher muitas vezes. Esse último sentimento, gerado pela visão de uma maternidade distorcida e opressora que a reprime, já que quando Pearl pega um ovo da crocodilo e o quebra no celeiro – local onde ela se sente mais à vontade para ser quem é – após brigar com a mãe, ela o destrói. Esterilizando qualquer possibilidade de vida daquele feto, ela poupa e pune ao mesmo tempo. Um clássico já analisado por Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo II”.

Enfim, o amor pelo cinema de Ti West e Goth é que é realmente puro. O desejo do diretor pelo cinema e por suas possibilidades linguísticas de interpretação é de aguar os olhos, pois é essa vontade pela sétima arte que já não se vê mais em produções “brochadas” atuais. Os filmes de West são “orgásmicos”, o que destoa bastante da tendência das produções A24, que geralmente puxam suas produções para um cinema “molenga e dodóizinho” – com brilhantes exceções é claro, como “O Farol”, por exemplo.

Mas “Pearl”, de fato, não seria o filme intensamente perturbador, e profundo, se não fosse graças à participação criativa de Mia Goth, não só como a atriz que encarnou Pérola, também o cinema e todas as mulheres. Como produtora executiva e co-autora do roteiro ela pensou, então, em sua personagem desde o nascimento. Ela compreendeu o que tinha que fazer e criou uma realidade totalmente distorcida para libertar Maxine e Pearl. Para libertar o cinema e seu feminino selvagem e brutal.

Por fim, precisamos de Ti West e Mia Goth, precisamos de melhores que Ti West e Mia Goth. O cinema precisa de muito mais tesão atualmente do que jamais precisou. E abram alas para as sessões da masturbação e do teasing cinematográfico! Não tem nada mais puro do que sentir desejo primitivo por algo.

5 Nota do Crítico 5 1

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