Passagens
Vai e vem amoroso
Por Pedro Sales
Festival de Berlim 2023
Um momento de prazer pode levar a uma vida de arrependimentos? Não sei, moralistas dirão que sim. Espíritos livres dirão que não, afinal “só se vive uma vez” – YOLO para os jovens, carpe diem para os clássicos. A questão de aproveitar o momento e ceder aos desejos permeia toda a trama de “Passagens”. As decisões do protagonista levam a um triângulo amoroso confuso, o qual lida diretamente com o egoísmo e a tão falada atualmente falta de responsabilidade afetiva. Dessa forma, o longa de Ira Sachs, roteirizado pelo diretor e pelo brasileiro Maurício Zacharias, sustenta-se em um argumento sólido e naturalmente interessante, apesar de vastamente explorado. O sucesso dessa empreitada, contudo, só se concretiza em razão do trio de atores: Franz Rogowski, ator que vem em uma crescente no cinema europeu e esteve recentemente em “Disco Boy“; Adèle Exarchopoulos, protagonista de “Os Cinco Diabos“; e Ben Wishaw, de “Entre Mulheres“.
O diretor de cinema Thomas (Franz Rogowski) conclui as gravações de seu filme. O trabalho ainda não acabou, faltam ainda muitas horas na ilha de edição. De qualquer forma, terminar as filmagens já é um alívio suficiente que merece festa. No espaço, Martin (Ben Wishaw), o esposo do cineasta, não consegue disfarçar sua preguiça em estar lá e vai para casa. Sozinho na pista, Thomas dança junto de Agathe (Adèle Exarchopoulos) e a conexão entre ambos ao som de música eletrônica acaba na cama. A infidelidade, então, torna-se o conflito central do longa, sobretudo em razão do caráter de descoberta no caso extraconjugal. Um homem aparentemente gay descobre ser bissexual, mas o deslize no matrimônio naturalmente causa rusgas e desgastes em uma união de 15 anos, dando início a um vai e vem amoroso envolvente ainda que repleto de egoísmo e ciúmes.
Tendo em vista a sexualidade de Thomas e o casamento gay, Sachs constrói o sexo heterossexual como algo novo para o personagem. É como se ele redescobrisse o tesão e o desejo em um ciclo vicioso, consequentemente a relação entre ele e Agathe deixa de ser puramente física e avança para o campo emocional. A ambivalência bissexual não leva Thomas a ter “duas vidas”. Pelo contrário, ele, na manhã seguinte, confessa a traição, mas sem arrependimento algum. Essa cena, mesmo sendo no início, já evidencia uma constante em “Passagens”: a moral reprovável do protagonista. A construção de um personagem com quem o público não se identificaria, em especial pelos seus atos condenáveis, sempre é um desafio em qualquer obra. O diretor consegue explorar a complexidade de Thomas e também das relações, de forma que nada seja simplificado ou meramente preto e branco. Assim, a confusão advinda do triângulo e até mesmo o ciúme são retratados de maneira naturalista, sem uma dramaticidade exacerbada.
Apesar de sempre citar “triângulo”, o que acontece aqui é um pouco diferente. O traído com seu ego ferido até encontra outro parceiro, enquanto Thomas e Agathe continuam juntos. No entanto, a obra não faz disso um quarteto, como o swing de “Closer: Perto Demais” (2004), de Mike Nichols. O foco está, ainda, nos três. Rogowski dá vida a esse homem confuso, entre um amor concreto e uma paixão repentina. Wishaw, em uma performance mais contida, tenta extrapolar o ciúme por meio de um recomeço com si mesmo e, por fim, Exarchopoulos interpreta essa mulher entre paixão e insegurança em uma relação complicada, afinal como explicar para os pais conservadores que o atual foi casado com outro homem? É mérito de Sachs não tratar Martin e Agathe como meros personagens orbitais. Eles exercem importância igual ao protagonista. Algumas cenas ambientam o espectador na rotina deles, o outro lado da vida sem Thomas. De certa forma, além de propor maior intimismo nas relações, aproxima ainda mais da dupla, a qual lida com decisões impulsivas e questionáveis do protagonista. Existe até uma virtual parceria entre Martin e Agathe, uma vez que compartilham experiências.
A direção de Sachs em “Passagens” submete os elementos expressivos da linguagem cinematográfica como um reflexo das emoções dos personagens. Uma discussão entre os dois é filmada com luz sub-exposta, mal se vê os rostos, o único destaque está no azul, cor naturalmente associada à tristeza. Por outro lado, o romance é sempre bem iluminado, os cenários, mesmo com uma aparente sobriedade, possuem elementos coloridos. A cor vermelha está na lingerie de Agathe ou no roupão de Martin, sempre em uma associação sexual. Sachs, inclusive, aproveita tal sensualidade de maneira muito frontal e direta, o sexo é filmado em um só plano, sem muitas estilizações ou closes. Mas tão logo começa, já termina. A montagem utiliza muitas elipses, em que quase todos os cortes levam ao mesmo lugar: a cama, numa transa ou no sono. Se por um lado isso comprime o drama, o uso da montagem alternada amplifica tal sentimento. Em um quarto duas pessoas estão juntas, respirações ofegantes e risadas. No outro, uma pessoa espera sozinha na cama, em um silêncio interrompido pelo som abafado do quarto ao lado.
“Passagens” retrata o caráter transitório dos relacionamentos pós modernos. Não é como se os desígnios do coração, por assim dizer, fossem simples. Há uma complexidade tangível nas relações. Dessa forma, a confusão de Thomas não é mera “desculpa”, é verdadeiramente o que ele sente, mesmo que o público não lhe dê chance de redenção, tampouco o filme. Sobra apenas o vento na cara enquanto pedala. Sachs, por meio de uma mise-en-scène expressiva, adentra as contradições do trio – ou do triângulo, se preferir. Nesse vai e vem, repleto de idas e vindas, ninguém escapa aos espinhos que surgem no meio do caminho. Cada um deles, de maneira própria, sofre com os impulsos e desejos, que culminam na falta de responsabilidade afetiva. Para tal, os três atores Rogowski-Exarchopoulos-Wishaw, em perfeita sintonia e em excelentes performances, constroem a alma deste drama romântico que ironiza a liquidez dos relacionamentos e a preponderância do ego, o eu na frente do outro, custe o que custar.