Parthenope: Os Amores de Nápoles
A existência por trás da imagem
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente no Festival de Cannes 2024
A imagem plástica, fotografada por um luz metafisicamente de instante suspenso, é a ambiência construída para que o realizador italiano Paolo Sorrentino possa continuar a desenvolver sua história pela estética visual. Esta é sua característica principal. As histórias, inclusive suas personagens, funcionam como coadjuvantes dessa poesia imagética. Sim, Sorrentino já tem a técnica perfeita e quando trabalha também a narrativa, aí é obra-prima, como fez em “A Grande Beleza”. Em seu mais recente filme, “Parthenope: Os Amores de Nápoles”, exibido aqui na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes deste ano, o diretor em questão, desta vez, visivelmente, ficou muito mais preocupado com a embalagem, que talvez tenha esquecido de seu conteúdo, este já também bem característico e definidor de sua carreira: de confrontar gerações, belezas e idades. E assim, essa obra levantou uma questão universal e essencial: como se define um filme? Podemos separar a imagem da trama? São elementos separados e se sustentam sozinhos? É, são muitas questões e ao longo desta critica ainda trarei algumas outras.
Não podemos negar que “Parthenope: Os Amores de Nápoles”, da A24, é um espetáculo visual, de precisão estética, que simula a fantasia metafísica de uma fábula com tom realista. Sorrentino constrói uma aura de sexy blasé noir (com um que de “Malèna” – de Giuseppe Tornatore – visto que o foco aqui é decifrar o mistério dessa beleza que chega a doer e incomodar quem olha, ora por saber que nunca será correspondido – num que de incel, ora por talvez não sustentar as consequências dessa “vitória”), entre seduções “sereias” e sexualização do corpo de uma atmosfera do final dos anos sessenta (e depois, numa elipse temporal que vai ao início dos setenta), que hoje percebemos o desejo machista e tóxico, em que “a primavera é aqui”. Aqui, acontece um balé de belezas, por câmeras lentas e cortes bruscos. Há um que de antropologia do olhar, de analisar o instante suspenso a fim de dotá-lo de argumentos mais humanizados da nossa condição de seres sapiens.
“Parthenope: Os Amores de Nápoles” conduz uma afiada narrativa retórica pelo deboche direto e ironia espirituosa, inclusive global (a música brasileira em uma festa). Como disse, a trama é pelo elemento universal do conflito de um que ama o outro que quer o outro. O longa-metragem busca traduzir esses desejos contraditórios e paradoxais ao questionar os porquês de alguém não aceitar o amor “estável” de quem o oferece. Por que o ser humano prefere complicar a própria vida e “correr atrás” de quem não sente “vontade” na gente? Com isso, nós encontramos uma mise-en-scène mais clássica (e reconstituída a um presente importado da nostalgia do passado), em que silêncios dizem mais que conversas e que emoções fluem livremente de pensamentos ultra expressivos. “Beleza é como guerra, abre portas e paralisa; uma grande ilusão”, diz-se.
Pois é, ser belo é ser harmônico na aparência e ter as proporções padrões. Sócrates acreditava que beleza é utilidade. Para Platão, é o ideal da perfeição. Para os dois filósofos, é a objetividade do olhar que conta. Mas em um filme (e na consciência popular do agora) alguém bonito precisa também mostrar suas qualidades internas, não ser apenas um troféu, tampouco se utilizar apenas da futilidade da própria imagem. O ser belo “adquire o poder” de ser mais insolente, egoísta, visto que precisa lidar com a “maldição” recebida. “Parthenope: Os Amores de Nápoles” é sobre isso e sobre como encontrar coloquialidade e naturalidade nessa elegante beleza transcendental. Como encontrar o amor puro? Até que ponto um ser belo pode levar o flerte se machucar o outro? E como fazer para “abandonar” alguém? Assim, o filme decide ir pela metafísica, por uma sinestesia do cotidiano, pela captação do de um invisível mais sensorial. “O que você está pensando?”, pergunta-se a essa pessoa bela, porque o fantasma do ciúme e o medo de ser trocado nunca desaparecem.
“Parthenope: Os Amores de Nápoles” traz também outra característica de Sorrentino: a estranheza em conjugar o surreal com o “normal”. Entre o bizarro, o emocionado, o enfático, o inteligente, esta obra desenvolve-se por fragmentos, lembranças, projeções, pragmatismo sensível, presunções, dúvidas e na máxima do “eu não te julgo, você não me julga”. Sim, tudo aqui é sobre questionamentos morais. É, pois é, durante todo o filme senti que o filme era vazio e à sombra de sua própria imagem criada, mas não. Quanto mais penso e escrevo estas linhas, mais percebo que “Parthenope: Os Amores de Nápoles” é uma complexa análise sobre a sensação real da vida e por isso aberta em seus desdobramentos, descobertas e escolhas de cada um de nós enquanto indivíduos sociais tentando estar humanos.