Papyni krosivky

O passado e seu apego

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Papyni krosivky” de Olha Zhurba pode ser considerado um dos destaque da Pardi di Domani, especialmente pelos europeus, por tratar de uma narrativa que consegue atingir diversas nacionalidades através do sofrimento de seu protagonista e da relação simbolizada em um objeto que é muito importante para sua memória afetiva.

As cenas que constroem sua preparação para receber e agradecer pela família que irá adotá-lo, mostra que além da barreira linguística, seu emocional possui uma pendência que precisa quitar de alguma forma. E no caso, é como um tratamento de choque, onde seu deslocamento em meio aos demais garotos que também aguarda a possibilidade de sonhar com uma família nova. O jogo de poder aqui representado pressiona o menino a adaptar-se rapidamente às demandas de uma receptividade mais formal. Sua incapacidade de completar as frases protocolares em inglês surge mais de um medo da vida nova e da despedida do passado, que necessariamente quem irá recebê-lo.

Nessa linha o curta constrói em pouco tempo uma base dramática sólida para que o espectador sinta o peso do objeto citado no título e da despedida de um lugar que traz tantas memórias, a foto que ele não consegue se desfazer, o apego pela esperança. Tudo isso é retratado através de imagens e poucos diálogos, onde a montagem é hábil em contextualizar rapidamente a narrativa. E “Papyni krosivky” possui sorrisos escassos, fazendo com que qualquer demonstração de felicidade possa evocar uma série de sentimentos em quem se dispõe à obra. Acaba demonstrando já na sinopse que sua felicidade está ligada à uma norte-americana que está viajando para a Ucrânia na intenção de salvar o futuro do garoto e cuidar de uma vida que se encontra em constante opressão por outros garotos ali presentes. É capaz de emocionar em pouco tempo e isso não é tão simples de se realizar, mas acaba mostrando uma certa preferência ideológica na escolha das palavras que caracterizam esse movimento de vida, o que é duvidoso no contexto político da região.

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