Os Quatro Paralamas

Harmonia e muita estrada

Por Victor Faverin

Durante o Festival É Tudo Verdade 2020

Chamavam Peter Grant, empresário do Led Zeppelin, de o quinto Zeppelin. O grupo britânico, certamente, não teria alçado voos tão altos se não fosse a figura do agressivo e, às vezes, impiedoso manager. O documentário “Os Quatro Paralamas” (2020), dirigido por Roberto Berliner, fã e amigo que acompanha Os Paralamas do Sucesso desde 1983, retrata José Fortes, o empresário conhecido como o quarto membro da banda, ao lado dos indissociáveis Herbert Vianna, João Barone e Bi Ribeiro. A presença do homem dos bastidores, no entanto, é muito mais amena e compassiva do que foi a concretizada na banda de Jimmy Page. Prova disso é que durante todo o filme – que compõe a Mostra Competitiva do 25º Festival é Tudo Verdade – Fortes é o único que chora ao discorrer a respeito da relação de amizade dos componentes.

Essa ligação, a propósito, é mais mostrada do que falada. Não há no filme grandes declarações de amor ou de fraternidade entre os membros. E não precisa haver. A união dos três que sobem ao palco já faz parte do imaginário popular, mesmo porque são 37 anos com a mesma formação. No rock isso é muito raro – vide bandas como Whitesnake e sua catraca sempre operante de substituição de músicos. Da mesma forma, inexiste em “Os Quatro Paralamas” o esforço de pontuar a importância do empresário. Sua influência é enraizada na gravação de cada sucesso e na logística de um grupo que se prestou a conhecer, de fato, o país onde vive e o povo a que pertence.

Essa brasilidade, aliás, é mostrada em vídeos de arquivos em que a banda embarcava na Rural e enchia seus para-lamas – desculpe pelo trocadilho – de barro para chegar a locais de shows remotos. Antes de continuar o texto da crítica, no entanto, devo dizer que o meu primeiro contato com a música do trio foi através de uma gravação de fita cassete feita por minha única e saudosa tia. As canções embalaram grande parte de minha adolescência e tocam fundo no meu coração até hoje. Dito isso, é preciso notar que o documentário mostra de forma breve o fascínio que a banda exerce sobre os seus seguidores. Explorar mais essa vertente e a maneira como cada um dos componentes lidava com a fama no início e de que forma isso poderia ter afetado a relação de amizade é uma lacuna que faz falta no filme, que sempre busca reforçar a cumplicidade inabalável do trio.

Sobre a música, goste ou não, é fato que Os Paralamas do Sucesso estão no Monte Olimpo do rock nacional. A banda, assim como todas as brasileiras – especialmente as dos anos 1980 – recebeu claras influências de grupos norte-americanos e ingleses. “Eu queria ser como o Ringo Starr”, confessa João Barone em certo momento, em referência ao ex-baterista dos Beatles. Todavia, um detalhe não vocalizado em “Os Quatro Paralamas” pode chamar a atenção por diferi-los da maioria dos grupos de fora: a banda brasileira nunca fez uso de iluminação especial, jogos de luzes ou pirotecnias em seus shows, crueza que, talvez, encontre paralelo na atuação da banda britânica The Police, especialmente no princípio de carreira. Se as canções têm qualidade e seus músicos possuem energia de sobra, não há necessidade de complementos. Dedicação, harmonia e suor são mais que suficientes.

Tal esforço e comprometimento com um organismo vivo que se mostra maior do que você mesmo é pontuado no documentário quando ele aborda o fatídico acidente de ultraleve que levou à morte a mulher de Herbert Vianna e deixou o vocalista paraplégico. Roberto Berliner parece querer mostrar que o músico não se sentia no direito de morrer, mesmo o médico que o operou tendo dito que as chances de sobrevivência eram remotíssimas. Não havia outra opção para o líder da banda do que a continuidade.

Vale destacar que a tragédia não é abordada de forma artificialmente impactante e, menos ainda, sensacionalista pelo documentário. Se o diretor fosse outro que não um amigo pessoal do trio, pinceladas demasiadamente emotivas poderiam ter sido aplicadas no filme. Mas não. O acidente é tratado apenas como um intervalo na carreira prolífica e harmônica da banda. Um arranhão no para-lamas – segundo e último trocadilho, prometo – de um veículo com gasolina de sobra para continuar rodando por muito tempo.

Trailer

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