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Os Ossos da Saudade

Os testemunhos do mar

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2022

Os Ossos da Saudade

As memórias e relatos presentes no documentário “Os Ossos da Saudade”, de Marcos Pimentel, são verdadeiras confissões de como a identidade permanece em uma relação constante com o esquecimento. A partir dessa perspectiva, a projeção procura se fixar em particularidades que permanecem inalteradas diante de tantas paisagens repletas de subjetividades e descrições. Nesse movimento, fica claro que a contextualização da obra não segue um caminho arbitrário em um recorte de histórias, que além de expor as angústias de seus personagens, nos apresenta os testemunhos dessas viagens. Os animais no fundo do mar são as parcelas concretas de depoimentos que não se encontram fixos em uma identidade, nacionalidade ou lugar.

Por essa razão, o grau de contemplação que as imagens de “Os Ossos da Saudade” promovem, é uma espécie de síntese particular de tempos tão remotos quanto presentes. Onde a multiculturalidade e as memórias são atravessadas pelo não-pertencimento, a decisão de Marcos Pimentel é de nos apresentar os resquícios materiais do que se pode idealizar a partir das descrições. Assim, não precisamos estar em contato com o rosto dos protagonistas durante suas falas, mas apenas observar os espaços que são referidos. Contudo, o ritmo das imagens, em suas flutuações e itinerários admiráveis, pode soar comprometedor para alguns públicos, que se habituados a determinadas formas mais convencionais, acabam por estranhar a condução tão íntima quanto generalizadora. É aqui então que reside a grande força da obra: conseguir transformar esses registros em expressões de um tempo tão dilatado quanto conciso. Isto porque, na medida que não estamos habituados a encarar o rosto dos nossos personagens, as belas imagens permitem uma série de compreensões e divagações sobre conceitos que são trabalhados ao longo da projeção. Desde identidade, nacionalidade, pertencimento, saudade, liberdade e outros.

Esse tipo de abordagem só é possível quando os tempos não se agilizam em informações imediatas. Se Anna Tsing em “O Cogumelo no Fim do Mundo”, dedica um recorte da pesquisa para conseguir captar as diversas concepções de “liberdade” que estavam presentes naquele contexto, “Os Ossos da Saudade” consegue um feito relativamente próximo ao ser capaz de desconstruir nossas pre-concepções a partir da dualidade entre a imagem e os registros dos depoimentos. Em alguma medida, é possível afirmar que a maior dificuldade seria encontrar o equilíbrio entre tais coisas, já que não há uma complementação explícita aqui. A montagem é capaz de transitar entre diferentes cenários, sem que haja uma ruptura de suas reflexões. Se essas paixões relembradas pelos atores sociais, neste recorte particular proposto pelo diretor, não possuem na saudade uma possibilidade de materialização dessas imagens, como seria o caso de uma imagem de arquivo, a intimidade de expor um quadro de fotografia diante da câmera, funciona como mais um elemento imaginativo permitido pelo documentário.

É interessante notar como Marcos Pimentel demonstra sua versatilidade entre projetos, já que pode acompanhar uma série de personagens em momentos singelos e íntimos, reconhecer a refrega entre a fé e a fúria, além de procurar nas memórias, uma baliza para entender a(s) finitude(s) materiais de desejos tão interiores. Nesse sentido, o título do filme pode parecer brevemente fatalista em um primeiro momento, mas é uma boa forma de sintetizar essas viagens imagéticas que possuem a centralidade dos indivíduos a todo momento.

Por mais que a contemplação e dilatação dos planos seja uma marca característica aqui, não há dúvida que o mais interesse da obra está em suas pessoas e nas formas como essas paisagens rapidamente se modificam com suas presenças, seja em um caminhar ou em uma dança. Entre algumas dessas possibilidades líricas e das materialidades que se sustentam pela estrutura do filme, é possível ter algumas distrações nesse desenvolvimento, aliás, os espaços para a imaginação possuem dualidades interpretativas, e essa é uma consequência direta. “Os Ossos da Saudade” é uma interessante forma de abrir a 16ª CineBH, mas uma complexa reflexão inicial entre esses universos de uma internacionalização, suas diferentes compreensões e significados.

3 Nota do Crítico 5 1

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