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Os Olhos de Tammy Faye

Escândalos minimizados

Por Vitor Velloso

Os Olhos de Tammy Faye

“Os Olhos de Tammy Faye” figura na lista dos indicados ao Oscar de 2022, concorrendo na categoria de Melhor Atriz e Melhor Maquiagem e Cabelo, e é o mais novo filme do diretor Michael Showalter (Doentes de Amor, 2017 e Os Pombinhos, 2020), que traz a história de uma das personagens mais icônicas do tele evangelismo estadunidense. Jessica Chastain produz e protagoniza o longa, buscando não apenas replicar os trejeitos de Tammy Faye, mas também entregar uma perspectiva particular, onde suas características possam ser compreendidas como parte do contexto subjetivo, sem se atrelar de maneira irreversível ao caráter fabuloso dessa história.

Porém, o projeto soa como um institucional da personalidade, uma espécie de recorte particular das injustiças e manipulações sofridas, especialmente pela figura do marido Jim Bakker, interpretado por Andrew Garfield. A própria sociedade evangélica norte-americana não é propriamente uma temática aqui, apenas os bastidores de uma vida construída pela mídia. Essa estratégia de “Os Olhos de Tammy Faye” pode funcionar parcialmente na primeira metade, onde o fascínio pela fé é demonstrado desde os primeiros minutos, tanto nas inúmeras limitações sofridas na infância, como no êxtase da benção. Desta forma, a montagem se esforça para explorar os diferentes momentos da biografia, sem que o espectador deixe de compreender que suas motivações possuem uma “moral elevada”. O problema é que o que em um primeiro momento funciona quase como um elemento humorístico, depois se torna uma muleta para fugir de questões polêmicas (políticas e religiosas), revelando a intenção de diluir a realidade para se concentrar apenas na vanglorização de uma figura marcada entre o brega e o louvor.

Essa suposta centralização dramática deixa passar toda a questão envolvendo Ronald Reagan, os diversos crimes cometidos pela rede de televisão, a prática da tele evangelização em si e como isso afetou o cenário nacional. Contudo, é mais atraente ostentar como a caracterização histórica pode render alguma estatueta para a produção. Não por acaso, em diversos momentos o espectador se vê isolado com Tammy Faye, em circunstâncias verdadeiramente desnecessárias, mas que são capazes de alavancar o filme como produto fidedigno dos acontecimentos e contextos, além de mostrar o talento de Chastain. Assim, o que torna “Os Olhos de Tammy Faye” uma experiência exaustiva é sua própria estrutura, que visa a romantização dos crimes, dos dogmas e dos vícios a partir de uma sátira que quase sempre termina em frustrações sexuais e sugestões, reforçando os diversos ciclos que terminam em uma superficialidade que contamina o projeto. Um claro exemplo disso, é como os crimes da rede de televisão são ocultados e mesmo que os esquemas sejam expostos, na cena do almoço do grupo, o grande foco é como moralização de temas contemporâneos e a opressão da protagonista. A sensação é de um filme que procura cumprir certas lacunas deixadas pelo documentário homônimo lançado nos anos 2000, com a direção de Fenton Bailey e Randy Barbato, que assinam a produção do longa de ficção.

Mesmo que o espectador se esforce para adentrar no universo com uma boa dose de interesse pela construção do império televisivo e dos crimes ali cometidos, a frustração é o fim mais provável de um longa que não foge das amarras de Hollywood, mantendo o foco na auto-premiação da indústria. Aqui, não houveram indicações para figurino, nem para design de produção, demonstrando como o projeto fracassou diante de um público que procura a exaltação de sua própria mídia.

A maior incapacidade de “Os Olhos de Tammy Faye” que é de construir um contexto crítico para o cenário político, religioso, propagandístico e midiático do qual seus personagens não apenas fizeram parte, como ajudaram diretamente, é a demonstração de um filme que se acovarda em uma biografia repleta de fanatismos diluídos por um discurso complacente. Mesmo quando o longa demonstra alguns pioneirismos da personagem, como no caso da HIV e homossexuais, faz com a mera intenção de enaltecer uma figura tão controversa quanto uma obra que se mantém no caráter institucional do primeiro ao último minuto.

Em um determinado momento Jim Bakker (Andrew Garfield) diz que é necessário ter fé em Deus e no Banco de Minnesota, e apesar de bastante ilustrativo, não é suficiente para compreendermos esse império que extorquiu parte de uma população inteira.

2 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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