One Child Nation

A imagem sobressai o discurso

Por Daniel Guimarães

Amazon Prime Video

O cinema é capaz de criar ou contestar verdades e paradigmas. Estabelecido em toda sua história, há filmes que se apresentam como pura propaganda ou que retratam a ideologia cultural de um país. Entretanto, dentro dessa lógica contestatória do cinema, há outra característica que, por vezes, parece subestimada: o poder de, a partir da imagem, gerar emoções e sentimentos como mecanismo de fuga de discursos vazios. A retórica economicista, aliada a influência publicitária, é uma forte arma de manipulação de massa. É incontável o número de vezes que os direitos humanos são violados em prol de uma suposta melhoria advinda de ações governamentais de cunho econômico. Em “One Child Nation”, o poder da imagem humana confronta diretamente esse discurso.

O documentário aborda a política do filho único chinesa, que durou de 1979 a 2015. A visão subjetiva de Nanfu Wang, americana que nasceu e cresceu na china de um só filho, nos conduz através de diversos retratos de uma época no país. As consequências dessa política são mostradas de forma a explorar ao máximo sua construção imagética. Utiliza-se do poder que há na materialidade da imagem para extrair o que há de mais humano. Nesse terreno, economicismo não possui forma.

Relativamente a isso, a violência no cinema, quando pretende ser usada para questionar através do impacto e do choque visual, necessita de uma aproximação da realidade. É o caso do longa-metragem que, a partir de uma realidade violenta, em forma documental, se aproxima das pessoas que está tratando, como uma forma de recontar uma época. Filma-se rostos e figuras humanas de maneira intimista. Se aproximando das feições e dos corpos das testemunhas, alongando os planos com reações humanas, a dor dos testemunhos torna-se palpável. Nesse sentido, a direção e a montagem se destacam, não usando os sentimentos das pessoas como chantagem emocional, mas destacando as experiências próprias de maneira singular.

Na manipulação publicitária do governo chinês, há um interesse particular. Por vezes dramatizada, com críticas mais ácidas e por vezes utilizando elementos de sátira como demonstração de absurdo, condena-se, através de imagens de arquivo, a influência que o poder público possui sobre a ideologia nacional do que é correto moral e economicamente.

Como estrutura narrativa, One Child Nation” consegue abordar, de certa forma, diversos assuntos de maneira eficiente. Evidente que cercado pela questão da natalidade que assombra o país, fala-se fortemente do machismo estrutural chinês, da falta de alimento, de abandono familiar e de uma característica ditatorial na propaganda. Seguindo sempre uma linha tênue e paciente, a partir dos relatos, não parece apressado ou com temas em excesso.

Apesar disso, pela própria característica de produção, sendo um documentário americano que critica o pior lado de uma política de outro país, o filme se perde na obsoleta romantização dos Estados Unidos. Como testemunha da época, a cineasta está no direito de abordar criticamente a política chinesa. Entretanto, ao mostrar seu lado americano como idealizado e o chinês como miserável, perde-se o efeito de uma análise real para um maniqueísmo batido e infantil.

É perceptível também o esforço de uma defesa da liberdade individual, quase acima da abordagem aos outros diversos problemas específicos de característica social já citados. Esse tema aparece eficiente em alguns momentos, como na abertura, saltando de marchas militares – que, aliás, estão presentes em diversas partes do filme – para imagens quase poéticas de um feto. Alternando um símbolo de repressão a um de inocência. Além de, claro, se relacionar com o tema principal do documentário: filhos e famílias na política chinesa. Entretanto, a defesa da liberdade feminina com relação ao aborto, apesar de interessante e relevante, parece deslocada. Isso por que a cineasta critica os problemas chineses ao longo de todo o filme e, repentinamente, insere uma crítica específica – o aborto – aos Estados Unidos e a boa parte do mundo.

É válido ressaltar que, mesmo sem possuir obrigação de criticar os Estados Unidos – afinal, nem todo filme possui – mostrar americanos como heróis tentando resolver as dificuldades de famílias chinesas que foram desmanteladas é, no mínimo, problemático. Apesar disso, “One Child Nation” é uma competente desconstrução de um discurso perverso a partir da imagem. Seu caráter humanista revela as inconsistências do regime que critica.

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