Oh Mercy!

Misericórdia, Cinema!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2019, “Oh Mercy! (Roubaix, Une Lumière)” é uma nova versão inspirada no documentário “Roubaix, Commissariat Central, Affaires Courantes” (2008), dirigido por Mosco Boucault. A ideia da obra da televisão foi o que motivou o realizador francês Arnaud Desplechin (que em 2017 abriu a competição do mesmo festival mencionado acima com “Os Fantasmas de Ismael”). Se analisarmos as características de suas obras anteriores, então perceberemos que Desplechin é um apaixonado por natureza e que por isso busca romantizar suas histórias  sempre que pode. É potencializar o amor com “muito” que ele deseja.

“Oh Mercy! (Roubaix, Une Lumière)” também é um forma de ressignificar as imagens que assistiu na televisão dez anos atrás e que o assombraram desde então. Assim, podemos deduzir que o diretor usa o cinema como uma forma de libertação e de suavização. De remodelar memórias com a necessidade de mitigar sofrimentos com a mais “pura poesia” (à base de “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski – “colocar mentiras em um coração de amor”), até porque, na coletiva de imprensa, ele disse que só “consegue se identificar com as vítimas”. Sua ficção é um “possível espelho da realidade” e foi “guiada vertiginosamente” por um único filme, “O Homem Errado”, de Alfred Hitchcock, tudo por causa do “enigma da verdade” sem mostrar o crime.

O longa-metragem é sobre a questão filosófica de ser humano, encarnado pelo personagem Daoud (o ator Roschdy Zem), um chefe de polícia dotado de bondade e que acredita incondicionalmente na lei, no progresso, no perdão e no compartilhamento de sua humanidade. Mais icônico que romântico, porém inocente, que carrega mais verdades que digressões e atenção lacônica nos gestos. “Daoud é um olho e uma ouvido, vê o mundo e o aceita”, disse Desplechin.

Nós espectadores compreendemos cada intenção de “Oh Mercy! (Roubaix, Une Lumière)”. Cada vírgula. Contudo, cinema não é apenas conceito. É preciso que seja transposto em imagens e formas. A narrativa busca o formato já padronizado, indo até onde a zona de conforto pode aceitar (especialmente pela direção ágil que prefere ansiedade à contemplação). Sim, câmera na mão para ambientar uma rotina de policiais e jovens “arruaceiros”. “Aqui todos os crimes são reais”, diz-se. É uma fábula noir, realista, mas com a névoa que invoca um conto de fadas à moda dos Irmãos Grimm. Entre queixas, discursos contra a xenofobia, estupros, incêndios, retratos falados, falsificação de testemunhos, falsas alegações, tudo pra dizer que a “França está sempre alerta!”.

A câmera próxima, quase em extremo close-up (e que pode indicar pistas pelos detalhes), almeja criar intimidade com o público, o fazendo participar da ação. Ao lado, observando de forma cúmplice e adentrando no universo da polícia e seus roubos. O delegado Daoud conversa como se fosse uma terapia e nunca perde a paciência. Uma calma soberana e educada. Que não intimida. Que reconstrói o momento do caso. Que interroga para descobrir o mistério, que ganha mais contornos de suspense a la Roman Polanski, principalmente pela música que embala o perigo iminente em  Roubaix, Nord. Em uma noite de natal.

Sim, é novamente uma obra com estrutura de televisão, mas realizada para o cinema e para as telas de Cannes. Que não ultrapassa o limite da família, mantendo-se puritano e conservador. Há um que de “Se7en – Os Sete Crimes Capitais”, de David Fincher, só que mais com sugestão que exposição. “Oh Mercy! (Roubaix, Une Lumière)” também nos mostra que o cinema mudou, restringindo possibilidades de culpados e vítimas e aumentando uma aguçada e histérica sensibilidade.

Quanto mais tentamos ser, mais nos aprisionamos em uma hipócrita projeção de liberdade. O cinema não morre quando deixa de ser mudo, quando ganha cores e ou quando compete com o streaming, e sim quando as asas são cortadas. E com a limitação, não há voos. Freud embasou seu estudo de que a mente humana de tanto repetir um comportamento e/ou uma mentira faz com que o subconsciente aceite a verdade e crie falsas memórias. O que pode ser apenas um filme inocente, mas se houver condescendência, o novo padrão será definido para sempre nas sinapses e aí, apenas com “hipnose” talvez alguns consigam mudar. Ainda que, por um “retrato necessariamente incompleto”, insira a condição do feminismo hoje em dia.

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