O Último Metrô

Uma vida de metteur-en-scène

Por Julhia Quadros

Truffaut em 35mm: Uma Semana de Cinefilia

Em “O Último Metrô”, ao observarmos o núcleo mais direto da narrativa, o Teatro Montmartre e seus ocupantes, entretidos com a criação teatral, olhamos para personagens como a atriz Marion Steiner (Catherine Deneuve), o marido e ensaiador Lucas Steiner (Heinz Bennent) e o recém chegado ator Bernard Granger (Gérard Depardieu) e para as relações entre eles. Olhamos para as palavras que não foram ditas e as intenções caladas por eles, mas claras para quem os assiste, nas peças e no filme, como a tensão entre ela, o esposo e seu colega de trabalho, com quem contracena, na peça em que estão montando, e interage na vida “real”. E, como tudo é, a princípio, apresentado com o distanciamento emocional e ideológico de personagens próximas, contidas, racionais, como Marion e Lucas, ou a aproximação das intenções de personagens distantes e ao mesmo tempo passionais, como Marion e Bernard, o enredo nos faz pensar se não estamos assistindo a uma obra de Tchékov. Porém, diferentemente do dramaturgo russo, cujo principal olhar clínico é uma crítica da frívola e covarde interação entre as pessoas e seu impacto psicológico, o cineasta François Truffaut aborda com o costumeiro otimismo o amor e os sentimentos que se desenvolvem e tomam corpo para além das vicissitudes imediatas e dos desejos reprimidos pelas circunstâncias.  É um grande trabalho seu, abordando uma expressão artística específica, como antes já trabalhara com a Literatura, em Fahrenheit  451, e com o Cinema, em Noite Americana. Com “O Último Metrô”, em 1980, homenageia as produções teatrais, o processo criativo e explora as personas por trás das máscaras que escondem os rostos de atores, diretores, técnicos, críticos e admiradores dos palcos. O filme pode também ser visto como um exame dos papéis sociais que as pessoas interpretam em contextos históricos cerceadores, tristes, penumbrosos, claustrofóbicos e reacionários. Perguntando como aquelas pessoas medíocres de antes chegaram ao poder agora, retoma a “resistência” do amor diante da opressão, em aparente e ao mesmo falso movimento que reverbera a mítica questão de tempos de guerra, como se encontra proposto (mas não resolvido) no eterno triângulo amoroso de Casablanca.

“O Último Metrô” retrata os anos de 1942 a 44, momento em que a Alemanha nazista exercia domínio político sobre a França, propagando seus dogmas, dentre eles, o antissemitismo. Lucas Steiner é judeu e vive no subsolo do teatro, de onde controla o que acontece através de sua esposa Marion, levando uma vida de metteur-en-scène no porão da antiga instituição. Percebe-se aqui certa referência à presença dos mundos subterrâneos complexos e ocultos, comumente abordados anteriormente na literatura romântica francesa, em que autores como Victor Hugo ou Gaston Leroux retratavam personagens que viviam por um longo tempo em lugares públicos sem serem descobertos, ou o intercurso entre uma cidade que se apresentava à população e uma outra cidade oculta, subterrânea, proscrita e que existia paralelamente à que era vista,  como em  O Corcunda de Notre-Dame, O Fantasma da Ópera ou  Os Miseráveis. Eram lugares habitados por figuras que não se adequavam à sociedade e ao que era o padrão do momento, vistas com equivocada repulsa pela sociedade. Sob o jugo nazista e o colaboracionismo de Vichy, presentes no filme sob a foram de emissões radiofônicas e textos jornalísticos, além de soldados alemães espalhados aqui e acolá, emerge uma França da infância de Truffaut, bela, encantadora, charmosa, musical, sagrada. Assim como nos clássicos do Romantismo, a principal característica da humanidade de Lucas Steiner será autenticada pelo próprio fato de amar, o que também é um ponto característico da autoria de Truffaut.  Não menos distante de seus objetivos quanto Erik, Quasimodo ou o próprio Cyrano de Bergerac, a certa altura citado visualmente, Steiner sofre pela distância de Marion enquanto ela progressivamente se apaixona por Bernard. Perguntamo-nos o quanto seria diferente se ele não estivesse em uma situação tão desfavorável e pudesse ter uma vida comum. Mas como o mestre da Nouvelle Vague sabe, não existem vidas comuns. A influência do Teatro e da Literatura no filme é muito mais profunda e estrutural do que se mostra a princípio, tecendo com ambiguidades e espelhamentos, os tortuosos caminhos da vida e da arte.

A personagem Marion Steiner, a princípio, se mostra distante e fria e, aos poucos, revela-se o oposto ao longo de “O Último Metrô”. No início, dissimula sua situação, com o controle das pessoas que trabalham em seu teatro, não permitindo que quem tenha qualquer proximidade familiar com judeus entre para o Teatro Montmartre. Porém, como está ajudando o marido a se esconder, toma esta atitude para afastar os perigos para ele. Assim como se mostra reticente com Bernard, que a atrai desde o princípio, e, como ela revela ao final, assume esta atitude para não demonstrar a grande impressão que ele causara nela. Marion, por exemplo, teme em verdade que Bernard se interesse por todas as mulheres e o trata com distanciamento, ao passo que com o marido, que ela não deixa de amar, mantém carinho e deferência, como se buscasse se convencer do contrário. Bernard é um jovem ator que resolve tentar sua carreira no Teatro Montmartre. Está experimentando este novo universo, um pouco como o próprio Truffaut, que largaria um emprego público pela função inconstante de crítico.  Este desenrolar é perpassado pelos ensaios e apresentações da peça “A Desaparecida”, que aos poucos vai se entremeando com suas vidas e com o próprio tecido vivo do filme. 

Truffaut recompõe em “O Último Metrô” um belo cenário de época, com detalhes do estilo de vida dos franceses deste período. A presença dos cabarés, das festas e do próprio teatro criam este ambiente, com uma beleza e sensibilidade visual muito características, restituindo talvez uma evocação pessoal da infância do próprio cineasta.  Há, na fotografia de Néstor Almendros uma composição e iluminação ao mesmo tempo caudatária dos tempos de lâmpadas de tungstênio fraquinhas, e da atmosfera dos tempos de guerra, com seus apagões, sombras pesadas e contrastes violentos. Uma grande evocação aos cartazes de Toulouse-Lautrec, com a presença de tons de vermelho, verde, marrom e paleta geral levemente amarelada, como se refletores de teatro recriassem este ambiente de uma Paris que não existe mais, uma Paris em um auge cultural anterior, que acabara de se chocar com a dominação nazista e que não se adaptou tão facilmente às dominações. Uma ode ao ser francês em suas mais diferentes manifestações.

Os cineastas da Nouvelle Vague, como Godard, Rohmer e o próprio Truffaut estudaram bastante o Cinema Clássico americano e incorporaram questões estilísticas ao cinema que estavam propondo na França na década de 1960, como a ausência de conflitos dramáticos de raiz psicologizante, retendo apenas a representação conceitual das oposições em jogo, em uma inspiração retirada do Cinema Noir americano. Há sempre esta construção, presente na atmosfera e no niilismo característicos, ainda que não utilizassem mais a estrutura de valores de Hollywood em seus filmes. Em “O Último Metrô”, se há um conflito central e sentimental ao longo do filme, que pode ser o triângulo amoroso e o desenrolar das relações entre as personagens, e outro de ordem sócio-política, que é a própria dominação nazista, que interfere diretamente na liberdade das personagens, isto no fundo não tem grande importância. É preciso procurar o conflito estrutural em outro lugar, mais entre o que se desenrola na tela e o mundo aqui fora, mais entre Truffaut, o Truffaut de sempre, e nós mesmos espectadores desejosos e ao mesmo tempo tímidos frente a nossos recalques, o que cria situações para que o contato interpessoal se aprofunde com o desenrolar da obra. A estrutura narrativa desta obra de Truffaut é muito inteligente, orquestrando essa situação e o lugar da arte nela para que se apresentem no máximo de sua potência.

O cineasta dirige esta obra logo após Quarto Verde, já estando doente e com a consciência de que poderia morrer em breve. Então, podemos pensar no quê François Truffaut propõe implicitamente com o filme, que assim como a própria construção da peça, apresenta um viés calmo e uma superfície agridoce, com, porém, muitas questões nas entrelinhas e situações ocultas. Há, ao fim, um flashfoward de uma personagem, que, de acordo com o narrador morrerá de câncer anos depois, mas decide não entrar neste assunto no momento; isto já é a consciência fatalista do autor, que assim como representa constantemente em suas obras, é um sentimento que vai crescendo e se condensando aos poucos até que toma forma e é incapaz de ser contido. “O Último Metrô” é o último trem antes do toque de recolher e a última esperança de fugir para a zona desocupada pelos nazistas. Porém, como no próprio desfecho do filme, ele opta por não terminar de uma forma convencional ou pessimista, mas com a confiança mantida no poder da representação nas artes, nos relacionamentos e na vida.

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