O Último Homem Negro em San Francisco

O Cinema que Pede Passagem

Por Jorge Cruz

A indústria cultura norte americana passar por uma crise de dupla identidade, uma encruzilhada pela qual parece empurrar a saída com a barriga. Obras audiovisuais com forte carga imagética e representativa seguem um caminho interessante, sob o aspecto negativo: são lançadas com o objetivo de angariar adeptos em festivais e premiações, se afastando do grande público; porém, não recebem o reconhecimento merecido, figurando mais na lista de injustiçados do que laureados. “O Último Homem Negro em San Francisco” (tradução livre de “The Last Black Man in San Francisco”, eis que ainda sem título oficial no Brasil), talvez, seja somente mais um exemplo.

O primeiro longa-metragem produzido, escrito e dirigido por Joe Talbot foi um dos grandes vencedores do Festival de Sundance de 2019. Sua campanha antecipada o alocou na prateleira de filme independente com potencial para a temporada. Todavia, chega às vésperas do anúncio dos indicados ao Oscar pouco assistido. Hollywood há muito cooptou a narrativa na qual “O Último Homem Negro em San Francisco” se encaixa. Um discreto passo ao abandono estilístico tradicional em obras focadas nas questões raciais e de gênero. Se Talbot não deve ser reconhecido como cineasta com lugar de fala, tão pouco sua visão “estrangeira” pode ser criticada. O filme é carregado de pequenos simbolismos e adições de elementos a um debate extremamente complexo, a conferir.

São tantas as formas de se pensar a experiência de assistir a “O Último Homem Negro em San Francisco” que poderíamos apresentar categorias e subcategorias, em um trabalho prazeroso de decupagem de cenas e falas. Prazeroso para quem o faz e nem tanto para que o lê. No máximo de objetividade, podemos iniciar essa jornada da maneira como o roteiro nos insere na ação. Um homem negro sai da prisão e outro, bem vestido e com uma Bíblia na mão, faz uma pregação para ninguém. Jimmie Fails (o ator e a personagem principal possuem o mesmo nome) atravessa as ruas da parte baixa de San Francisco e as ladeiras íngremes que dão acesso à “área nobre” da cidade com a mesma destreza. Em uma casa, ele parece fazer reparos nunca solicitados.

Antes que o realismo fantástico de obras que tentam suavizar os temas agudos a serem tratados tomasse conta, Talbot nos passa mensagens a partir de elementos cênicos. Ao longo do caminho veremos Jimmie tentar mudar sua roupa e forma de falar, como se estivesse se moldando para a sociedade que valoriza qualquer aspecto de branquitude. Não precisamos em nenhum momento ouvir que a motivação do protagonista é a falta do poder da palavra de negro por ele identificada ao longo da vida. Em outra passagem, genial, um senhor branco senta no ponto de ônibus completamente nu. Ninguém em volta se choca com a cena, eis que o espaço público – como um todo – é oferecido para o homem branco. É difícil para muitos entender a importância da ocupação de um espaço que sempre lhe foi negado, sendo óbvias as diferentes consequências caso Jimmie, que está ao lado, tomasse a mesma atitude.

O caminho que o filme segue é criar um vínculo da personagem principal com uma casa. Construída por seu avô ao voltar da Segunda Guerra Mundial, Fails cria em sua mente um sentimento de pertencimento àquela propriedade. Nessa relação pessoa e bens, “O Último Homem Negro em San Francisco” nos transporta para o mundo onde o povo negro tenta resgatar histórias esquecidas por constantes processos de apagamento. Negativa de mérito que, em uma escala menor, deu o Oscar de 2019 para Green Book: O Guia quando Infiltrado na Klan transbordava suas questões de forma bem fiel aos invisíveis preceitos da Academia. É quase como se a indústria cinematográfica avisasse: apoiamos o empoderamento de outras raças e gênero no nosso quintal, mas não podemos perder nosso controle. É a mesma lógica aplicada há séculos e que, mesmo em um ambiente aparentemente progressista e um momento de aparente resistência, continua sendo testemunhada.

Aliás, o longa-metragem de Joe Talbot se assemelha sob uma ótica ao de Spike Lee: alia a pertinência temática em franco diálogo com a sociedade à estética e construção narrativa que Hollywood está acostumada. A diferença é que o cineasta, produto de seu tempo, nos entrega uma obra bem menos festiva, bem mais melancólica do que a veterano diretor. Sua busca por evitar o didatismo pode gerar uma incômoda sensação de experimentalismo da parte do público que consome obras menos densas. Portanto, não se assuste se alguém lhe disser que  “O Último Homem Negro em San Francisco” é um filme, digamos, estranho. Trata-se de um longa-metragem que pretende, dentro do redemoinho de referências que explode nossa cabeça pelo caminho, adicionar no debate a ancestralidade de Jimmie – da mais distante à mais próxima – ao mesmo tempo que busca a identificação universalista da importância de termos um lugar para chamarmos de casa.

Os diálogos visuais criados por Talbot são impressionantes. Em uma linda cena, o protagonista abandona o famoso bonde quando este já está quase chegando no alto da ladeira. A câmera se posiciona bem distante e podemos ver a personagem descendo a rua de skate, quase em negação ao espaço que lhe é negado. Ali se materializa, em poucos segundos, a maneira como os negros se colocam nas calçadas da cidade. Durante o dia, evitam falar alto e sempre conversam longe do meio-fio, sentados nas escadas – realmente à margem da sociedade. Quando anoitece, a rua pode ser completamente ocupada, com a ressalva do poder opressor que acredita prezar pela segurança.

O elenco de apoio também se vale à complexidade da obra. Com ele conhecemos um advogado branco pouco capacitado que hipocritamente milita pelos sem-teto norte americanos e um cantor de ópera negro que mora na rua, quase em contraste. O filme se revela, portanto, uma sequência de construção de imagens, com disparos de mensagens diretas, indiretas e metafóricas que precisa ser revisto sempre que possível. Há momentos em que o exagero narrativo é a saída (como no homem nu). Em outros, a crítica igualmente forte é quase um tapa com luva de pelica, como no momento em que a personagem segura um DVD pirata de “O Patriota”, filme de 2000 em que Mel Gibson se apresenta como o herói branco formatado para as massas.

As questões seguem se sobrepondo, como a omissão de negros por outros negros; a dificuldade de aceitação da sociedade quando da ascensão social. Nesse mosaico, acaba que “O Último Homem Negro em San Francisco” é uma retumbante epopéia, um épico realista e pós-moderno em que a trajetória de transformação não ocorre apenas para massagem de egos. Há muito nessa obra que merece ser visto e sentido ao invés de contado. Sua potência se assemelha ao videoclipe “This is America” de Childish Gambino. Cada pessoa, com suas referências e informações, receberá o longa-metragem de uma maneira. A questão é que o potencial transformador de um filme como esse é imenso. Até mesmo para os que acreditam na ideia de uma Califórnia mais progressista, de uma San Francisco reconhecida por sua tolerância e igualdade, como se o assassinato de Harvey Milk fosse algo de um passado muito distante.

Joe Talbot consegue dizer centenas de vezes em duas horas o quanto vidas negras importam sem nos entregar um panfleto ou pichar uma parede com essa frase. O ato final, com a adição de elementos das pungentes artes cênicas contemporâneas é nada menos do que sufocante, angustiante. Fase do filme em que o texto se permite ser mais contundente, com um discurso que não é libertador porque nunca lhe permitem ser.

Se nos anos 1970 surgiu uma Nova Hollywood para reescrever as regras do cinema norte americano, cinquenta anos depois uma cena carregada de representatividade se apresenta. O sistema já cooptou há muito essa leva de novos realizadores (um dos produtores desse longa-metragem é Brad Pitt, por exemplo). No momento podemos identificar um cabo-de-guerra entre os veteranos que tentam manter como relevantes obras unidimensionais, compensando décadas de apagamento e preconceito com uma equidade quase forçada e uma geração disposta a ir além. O poder da caneta e os maiores reconhecimentos seguem nas mesmas mãos, como se antiguidade fosse posto. No fundo, têm ciência que cineastas como Ava DuVernay, Jordan Peele, Ryan Coogler, Steven Caple Jr., Barry Jenkins (dentre outros) não vieram para ser a exceção. A aceitação do público passa por um aumento da visibilidade dessas obras em detrimento de outras, de muito produtor e cineasta consagrado, que sabe que seu flagrante anacronismo o tornará, de certa forma, menor.

Uma das maneiras de aumentar o acesso a filmes como “O Último Homem Negro em San Francisco” é, de certa maneira, dar a chancela do mainstream o indicando e premiando ao final da temporada. Pelo visto, 2020 será mais um ano em que a representatividade será sumariamente ignorada, só que agora parece pior. Enquanto a Nova Hollywood e seus fan boys maneiristas nos entregam mais do mesmo, uma obra como essa se apresenta como uma anti-fábula do nosso tempo. Não há lição de moral nela que não dependa do que você entende como sociedade e, principalmente, como cinema. A melhor forma de conhecer um cinema que pede passagem.

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