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O Território

Alienígenas que contam histórias

Por Ciro Araujo

Durante o É Tudo Verdade 2022

O Território

O selecionado para o filme de encerramento do É Tudo Verdade de 2022 foi um já premiado por outro festival. “O Território”, de Alex Pritz e produção debaixo do guarda-chuva de Daren Aronofsky, entrega uma espetacularização do conflito que finalmente entra em pauta cada vez mais. Ganhador em Sundance do prêmio popular e de um prêmio especial do júri, já é visível o motivo do alarde: é sem dúvida alguma a visão ideal gringa do momento talvez mais caótico das reservas nacionais. Oportunismo? Claro, um cineasta norte-americano vai possuir esse “gaze”, esse olhar até colonialista que observa atentamente acontecimentos em busca de os retratar.

Cômico como a tribo Uru-Eu-Wau-Wau foi filmada por alguém de fora. A repercussão dos acontecimentos envolvendo Bolsonaro e a abertura dada pela sociedade brasileira que sofreu efeitos de propaganda contra indígenas transforma como ouro para uma denúncia. Do Brasil, restam alguns gatos pingados para apresentar esse aviso através de filme, muitos em forma de ensaio. Alex Pritz decide chegar do Brooklyn, como naquela visão na época da rixa entre o ator Leonardo di Caprio e Jair Messias: de fato, óbvias observações sobre as políticas genocidas e estúpidas do presidente. Os estrangeiros soltaram o verbo e faltava alguém para filmar isso. O longa-metragem então age em uma estrutura que pode ser mastigada para norte-americanos e o cinema de massa. A dramatização se passa através de músicas tensas ou de ação, a depender do batimento por segundo que a edição encontrou mais cabível.

“O Território” é um sintoma do apagão deixado por esses quatro anos na cultura brasileira. Apesar dos observados serem indígenas, aquele que observa é alienígena. Invisibilizados por nós, sobra o trabalho para alguém que não possui tanta noção. Em determinado momento do documentário, o longa se dá ao luxo de mostrar um golpe de sequestro que Neidinha sofre, realidade brasileira. Eis que por alguns minutos além de ser filmado na mão, uma correria absurda, acompanha a trilha sonora digna de Hollywood. Que falta de austeridade! Novamente, uma espetacularização de conflito. É interessante como na realidade a visão dada por alguém de fora é parecido com um mascote de estimação. Não há paridade entre os dois, mas que seja.

Ainda assim é louvável a necessidade de denúncia. O longa-metragem permite como função social. Ele informa, indica e fornece o que não havia, especialmente para quem é de fora. Por isso enfim sua aclamação em Sundance. Se há algum paralelo, não apenas em seu trabalho, também esteticamente: “Democracia em Vertigem”, um cinema netflixiano. A imagem possui textura digital, impressão e estilo feito para o chamado “conteúdo”. Drones viajam através dos planos, takes que impressionam na exuberância e caos, o verde tão vívido e lindo… Espera, é sobre o que o filme? Pois então, mais uma vez a característica presente no primeiro plano que o cinema de Alex Pritz nos apresenta. É bonito, mas a que custo? Nada além da escola cinematográfica contemporânea, onde se aproveita da estrutura clássica de três atos e utiliza-a em escala industrial.

Entrevistas são utilizadas para expor o apresentado, compreender a ordem social. A voz do inimigo é apresentada em um tom de equilíbrio. “Deve-se escutar os dois lados”. Apesar dessa frase ser objetivamente horripilante, de fato há uma inserção interessante aqui. É capaz de apresentar ao menos a ordem, ou melhor, a hierarquia sistemática existente na pauta. Os Uru-Eu-Wau-Wau de um lado, acreditando estarem em correto ponto. Os grileiros compreenderem possuir propriedade, fruto não apenas do governo Bolsonaro (que é amplamente culpado, com motivo) mas também de questão histórica. Logo antes de ser chamado para o Ministério do Meio Ambiente, Ricardo Salles foi eleito deputado federal com panfletagem incentivando a caça de javalis “com bala”. Não foi puramente culpa de estúpida politicagem, é sistemática dentro da sociedade brasileira.

“O Território” compõe o simples e que já virou cotidiano para o brasileiro. Apesar disso é oportunista uma vez que ninguém mais se permite visibilizar o que antes não era enxergado. Alex Pritz, que antes fizera documentário no Quirquistão, parece colecionar a internacionalização de seus documentários, em formatos simples e que panfletam para um mundo que antes não enxerga. É claro que o gaze é totalmente de primeiro mundo, olhando para um animalzinho coitado que agoniza após ser caçado. Se como professor, é o raso inexperiente que explica o beabá.

2 Nota do Crítico 5 1

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