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O Soldado Que Não Existiu

Me engana que eu gosto

Por João Lanari Bo

O Soldado Que Não Existiu

O Soldado Que Não Existiu”, realizado por John Madden em 2021, é baseado numa dessas histórias passadas durante a 2ª grande guerra que, por mais inverossímeis que possam ser, acabam fincando o pé na realidade – acredite, se quiser, diria Jack Palance. Quem quis acreditar e acreditou foi Adolf Hitler, para alegria de boa parte da humanidade: um estratagema esdrúxulo, mas bem armado, convenceu-o de que as forças aliadas iriam invadir o sul da Europa, em 1943, pela Grécia, e não – como seria o óbvio ululante, basta olhar o mapa – pela Sicília, na ponta da península italiana. O que seria mais uma piada no estilo excêntrico e arrogante dos ingleses revelou-se um subterfúgio fundamental para evitar milhares de mortes inúteis, como acontecem nas guerras. Situações análogas de engodo do inimigo abobalhado fazem parte da mitologia que a tradição oral e escrita preservou, algumas, como o famigerado Cavalo de Tróia, devidamente inscritos no nosso (in)consciente histórico: outras, nem tão visíveis, mas não menos letais, estão à nossa volta, muito mais próximas do que supõe a vã filosofia. A patética invasão da Ucrânia, em curso, e a incrível manipulação de informações que a cerca – sabemos, de fato, muito pouco ou quase nada do que realmente se passa no terreno – têm mostrado mais uma vez que fazer uma guerra não é para amadores, que os estratagemas para burlar o opositor, na era digital que vivemos, são infinitos. A operação “Mincemeat” – carne moída, em bom português – foi aventada como ideia em 1939 por ninguém menos que Ian Fleming, o homem que mais tarde ganharia fama mundial como o criador de James Bond. Fleming foi solicitado a apresentar uma série de esquemas de engano no início da guerra, e uma de suas ideias era jogar um cadáver carregado de documentos falsos atrás das linhas inimigas. Em 1943, o plano foi levado a cabo, e a Sicília invadida com pouca resistência – um dos momentos, sem dúvida, em que cinema e guerra estiveram mais intimamente interligados.

Uma ligação, sabemos, que dá pano para manga. Se os Aliados pudessem “inventar” uma carta revelando seus planos e colocá-la nas mãos de um agente da inteligência alemã na Espanha, a informação logo chegaria a Berlim. Inventar uma carta e um personagem, mesmo ele sendo um cadáver: uma boa história inverossímil tem de ter um invólucro metalinguístico, com certeza. Ewen Montagu (Colin Firth) e Charles Cholmondeley (Matthew Macfadyen), personagens reais e principais executores do plano, passam boa parte do filme como se estivessem arrematando um roteiro de filmagem às vésperas de entrar em produção – ambos encarnados por atores versáteis e precisos, ladeados por uma atriz igualmente competente, Kelly Macdonald. Tratava-se de encontrar um cadáver, vesti-lo como um soldado e levá-lo para a costa da Espanha, onde, supunha-se, o corpo e os pertences seriam recuperados, e a carta enviada ao alto comando nazista. A Espanha tinha um status neutro naquele tempo, embora a simpatia fosse a favor dos nazistas …a possibilidade de que a ousada tacada funcionasse era, portanto, plausível. “O Soldado Que Não Existiu”, lastreado em roteiro compacto e edição ágil, esmerou-se nos detalhes ligados à construção do personagem William Martin, o cadáver: no seu bolso havia carta do pai, recibo de joalheria em Londres de anel de noivado, carta do Lloyds Bank exigindo o pagamento de um cheque especial de £ 79 e fotografia de sua noiva fictícia, Pam, além de duas cartas “amorosas” dela. Claro, e o principal, amarrado por uma corrente ao seu pulso direito: uma carta do tenente-general Sir Archibald Nye, vice-chefe do Estado-Maior Imperial, ao general Sir Harold Alexander, que na época comandava o 18º Grupo de Exércitos no norte da África. Este era o documento crucial contendo aquilo que os Aliados esperavam vender para os nazistas: a insinuação de que o Estado-Maior inglês estava se preparando para o ataque nas praias gregas.

Também nos personagens coadjuvantes “O Soldado Que Não Existiu” transborda para o cinema. O irmão de Ewen Montagu, muito citado na fita – era tido como “comunista” e provável agente de Moscou – era o documentarista e escritor Ivor Montagu, amigo de Serguei Eisenstein e Chaplin, também dado a excentricidades: foi campeão de tênis de mesa, e fundador da Federação Internacional da categoria. A família Montagu era de banqueiros judeus muito ricos: durante a guerra os irmãos estavam do mesmo lado. Depois, na Guerra Fria que se seguiu opondo os mundos capitalista e comunista, Ivor, que aparentemente não se envolveu em encrencas mais pesadas, ganhou o prestigioso Prêmio Lenin da Paz, em 1959, concedido pela URSS a destinatários que se dedicaram à causa do socialismo. Em 1968, publicou um livro precioso, “With Eisenstein in Hollywood”, registro da passagem do diretor soviético em Los Angeles, no início dos anos de 1930. E seguiu jogando ping-pong até o final da vida.

3 Nota do Crítico 5 1

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