O Prefeito

Aos brasileiros a representação é real

Por Fabricio Duque

Sim, é quase lógico afirmar que quanto mais autoralidade empregada e “suada” na construção de uma obra artística, mais nos espectadores conseguimos encontrar a verdade da própria criação. O realizador Bruno Safadi é um desses responsáveis que experimenta o cinema em todas as suas possibilidades de existir. Em “O Prefeito”, uma fábula-paródia de viés político-social, explora-se a integração do espaço público, e pela tradução surrealista consegue estabelecer um diálogo crítico sobre os problemas de nossa cidade, aqui representada como um lugar ficcional, de realismo fantástico. Nós somos adentrados em um contemporâneo e orgânico conto de fadas de um prefeito excêntrico e “louco” (que decide separar o Rio de Janeiro do Brasil e fundar um novo país), que invoca a crueldade mimada “cortem a cabeça” de “Alice no País das Maravilhas” com a fantasia literária do escritor português Manoel de Oliveira. 

“O Prefeito” integra o programa Tela Brilhadora, um espírito-produtor de quatro longas-metragens, que se une a “Garoto”, de Julio Bressane, “Origem do Mundo”, de Moa Batsow, e “O Espelho”, de Rodrigo Lima. O filme em questão aqui faz referências de complemento aos outros citados, como a pedra que dialoga com a “Origem do Mundo”, o concreto para criar a alegoria de um “escritório” a céu aberto, no meio de uma “ruína” cosmopolita, ativa destruição e reconstrução. De um prefeito com ares de “imperador” que despacha atos no meio dos barulhos da obra (quase não ouvimos sua voz – outra metáfora crítica a impedir que se ouça os desmandos). É uma sátira teatral, à moda de “Dogville, de Lars von Trier. A cidade “dele” em uma maquete de pedras.

O longa-metragem é ambicioso, visto que era preciso um ator de peso para “encarnar o ditador” de gravata-borboleta. Pois é, Bruno acertou em cheio ao escalar Nizo Neto, que com domínio absoluto consegue carregar a responsabilidade nas costas, apenas com sutilezas, como mudar pedras de lugar. As novas propostas são infundadas: um novo centro da cidade contra o “antiquado” e “histórico”. A narrativa complementa fotos e um off de ficção científica para nos conduzir por um caminho que mais parece um episódio de “Além da Imaginação”, mas que para os cariocas tudo isto soa comum demais (porque já nos acostumamos com a “bagunça” generalizada). Até nisso Black Mirror perde. Adentramos consequências impossíveis de entendimentos pelos estrangeiros visitantes. “É a política dos noventa e cinco porcento presente, cinco por cento passado e foda-se o futuro”, diz, entre imagens de passantes bombardeados (o próprio diretor) e de Getúlio Vargas. O livro de capa dura, a mulher de branco, o espelho, o subordinado, as reais alucinações, a boneca inflável, o vício em remédios, tudo representa a ineficiência da gestão, exacerbada aqui, com deboche caricatural, para explicitar a crítica. É um filme-revolução. Por uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Inclusive com Djin Sganzerla cantando.

“O Prefeito” talvez seja outra coisa. Um delírio de um mendigo em efeito psicotrópico? O mundo criado por um esquizofrênico internado? Um trabalho de campo disfarçado? Um ruído intensificado da loucura da alma? Uma projeção de uma “alma errante”? Nosso protagonista pode estar no “encontro de ser um herói nacional” (“lugar rico para todo mundo” com todas as ideias utópicas-sociais de uma vez) ou pode estar na “bad trip” (de projetar o querer do sucesso “não muito aceito”). Ou ao contrário. Tudo depende sempre do ponto de vista. “Viva a arquitetura”, anima-se como uma ópera dramática. “Como dar à cidade o que ela merece e cada um ter o seu?”, auto-questiona.

O filme é uma sucessão de picardias em frases: “O Brasil sairia da sombra do Poder Judiciário e teria vida própria”; “O Rio é a esposa do Brasil”. E dando “perversão” e colocando “crença em prática”, surta no radicalismo metódico de “um governo voltado à população”. Sim, é cruel o que fizeram com a gente de impedir que voltemos a acreditar nos políticos. Assim, com empreiteiras, a televisão de todo mundo, o caos da cidade toda quebrada, os moradores do Saara, só nos sobra a nostalgia da música de Rogério Sganzerla, a redenção Fellini e a resignação em aceitar estátuas que enaltecem “orgulhosos” e inconsequentes feitos, sem a noção claro de que tudo é o dever mantenedor da ordem e dignidade de um povo (seres humanos enquanto indivíduos sociais). “O Prefeito” ganhou uma “continuação” da “história”. “Sofá” (leia a crítica AQUI) foi lançado no Festival do Rio. Em breve nos cinemas.

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