Sofá

Desconstruindo a imagem como linguagem

Por Fabricio Duque

Festival do Rio 2019

Exibido pela primeira vez em uma única sessão do Festival do Rio 2019, “Sofá”, novo filme do realizador Bruno Safadi (de “Belair”, “Éden”, “O Uivo da Gaita”, “O Fim de Uma Era”), integra o festival de Tiradentes 2020 na mostra A Imaginação como potência, nome este que resume e define, de forma precisa, o que é realmente o longa-metragem em questão, uma “paródia tropical”.

Comporta-se como exercício de linguagem cinematográfica por experimentar narrativas, planos, cores, estéticas visuais, texturas, sons e conceitos. É uma desconstrução da própria imagem, que se conduz com a mais completa descontinuidade, esta uma latente característica-essência do cineasta Jean-Luc Godard, que aqui é explicitamente homenageado aos moldes de “O Demônio das Onze Horas” e “A Chinesa” (e algo de “Adeus a Linguagem”) e/ou mais sutil a “Acossado” (pela camisa escrita New York Herald Tribune).

É também uma obra revolucionária por surtar a crítica sobre nossa sociedade. Por potencializar reações desestabilizadas psicologicamente. “Sofá” é um manifesto artístico que convoca a energia pulsante da Nouvelle Vague (a liberdade do pensar, criar e agir); o psicodelismo construtivo do diretor Gaspar Noé (com suas inserções estroboscópicas); a estética carioca de uma paranoia guerrilha (que de forma abrasileirada e mais Cinema Novo);  e, o mais importante, que personifica o  movimento Belair (com foco total no conceito do olhar e do perceber entre linhas), trazendo inclusive elementos de seu filme anterior “O Prefeito”, uma fábula política-social sobre as idiossincrasias extravagantes de uma autoridade votada pela povo

O longa-metragem é uma surreal experiência visual, que precisa e deve ser assistida no cinema. Uma estranha viagem psicodélica quando aprofunda a esquizofrenia. “Sofá” liberta a própria arte de se fazer filmes por permitir a liberdade plena de um bagunçado brainstorming. Nós somos convidados a participar dos bastidores ficcionais (que são reais em determinado momento); das constantes quebras da narrativa (mais uma vez, um estilo típico de Godard); e do formato comuna (uma união não hierárquica de todo a produção). Aqui, o filme é de todos os envolvidos (e são categoricamente lavrados pelos créditos da abertura – de novo com muito Godard e Noé). Sim, caro leitor, “Sofá” é uma adaptada homenagem cinéfila ao mestre francês.

Os atores principais também mesclaram funções. Ingrid Guimarães e Chay Suede, além de interpretar seus papéis, colaboraram no roteiro e colocaram seus nomes como produtores associados. Cada vez percebemos mais a aura de união. De cinema coletivo. É nítido o despojamento sem vaidades, tanto da atriz de “De Pernas Pro Ar”, quanto do ator galã de novela. Os dois comprovam (e vêm provando) a busca pela desconstrução (mais ou menos o que aconteceu com Marlon Brando) e pela luta guerreira pelo independente. Ser ator é isso: improvisar se precisar e se desnudar.

Assim, todos puderam viver cosmicamente uma jornada-epifania ultra-sensorial (cm foley avançado), de tempo suspenso e de psicanálise etérea, como se tudo não passasse de uma crise de loucura. Com apenas setenta minutos, essa fábula hipster arthouse atinge camadas do subconsciente, que justifica a confusão do existir por estar entre realidades projetadas e distantes. Nesse ponto, tudo pode ser fragmentado como sinapses em elipses.

Um dos méritos de Bruno Safadi é que ele não suaviza a trama. Não cria gatilhos palatáveis. Não se serve de alívios comuns. Seu exercício militante mantem-se até o último plano. Literalmente. Podemos inferir incursões a “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Sim, por que não? É o conceito intrínseco. As colagens ao estilo de Luiz Rosemberg Filho, um exponente do cinema de invenção. E/ou o cinema direto que intervém no popular, atravessando a cidade em meio a um cotidiano naturalista, quase documental (a observação dos passantes).

“Sofá”, de forma proposital, perde-se no não convencional, desestruturando a lógica narrativa, para abrir caminho à liberdade sem amarras. A fotografia é um espetáculo à parte por escancarar a neo-vanguarda, complementada pelo formato de exibição de filme caseiro, antigo e em super oito. Como se estivéssemos folheando um descontrolado álbum de fotos e movimentos a 35 quadros por segundo. Gostando ou não, achando experimental e “viajandão” demais, o espectador precisa concordar que é uma obra fora da curva. Por respeitar a essência da quimera como um devaneio fantasioso e fantasmagórico (a existência em caos após um pessoal trauma). Com produção da Cavídeo, o longa-metragem pode sim invocar Mário Peixoto pela falta de limite.

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