O Pintassilgo

Maturidade Forjada no Luto

Por Jorge Cruz

Em determinada cena de “O Pintassilgo” o personagem de Jeffrey Wright, Hobie, ensina para o protagonista, Theo (vivido em sua adolescência por Oakes Fegley) a diferença entre fraude e reprodução. A primeira seria tentar obter vantagem com aquilo originalmente caracterizado como a segunda. A obra dirigida por John Crowley não chega a deixar uma sensação de fraude cinematográfica ao espectador, uma vez que apresenta algumas qualidades genuínas. Todavia, sua forma de condução da trama é quase um ato de exasperação. Há priorização na constituição de elementos secundários, que revelam a preterição de importantes prismas da história, engendrados com fragilidade. 

O roteiro de Peter Straughan, adaptando obra literária de Donna Tartt, não chega a desprezar informações ou tolher ambientações e explicações necessárias. É até um produto bem acabado textualmente – mesmo que não enxuto. Ocorre que a maneira como o material é exposto, enfatizando determinadas questões com muita cadência para atirar outras de qualquer maneira, torna intragável algumas soluções da trajetória do protagonista.

Quatro anos após a boa campanha de “Brooklyn” na temporada de premiações, o cineasta irlandês Crowley volta a ambientar um longa-metragem na mais famosa cidade dos Estados Unidos. Ele traça duas linhas temporais. A primeira, com Theo adolescente, se passa em 2008. O texto não traz essa informação, mas podemos perceber a nuance quando o protagonista conversa com seu amigo Boris (Finn Wolfhard) enquanto escutam Jai Ho, sucesso daquele ano a partir da trilha sonora de “Quem Quer Ser um Milionário”. A segunda é entendida como uma década depois, quando Theo é interpretado por Ansel Elgort, um dos mais carismáticos rostos da Hollywood atual. Por vezes, essa montagem paralela parece servir mais para ancorar o desenvolvimento do filme na figura do ator do que em construir um clima de suspense, já que quase tudo o que interessa na trama acontece no passado.

“O Pintassilgo” não potencializa todo o esforço desempenhado por alguns profissionais brilhantes que fazem parte de sua equipe. A fotografia de Roger Deakins e, principalmente, a direção de arte de Deborah Jensen merecem destaque. A forma como as imagens são conduzidas quando a linha temporal é aquela do protagonista adulto, aproximando suas cenas de uma aura clássica hollywoodiana (à exceção do design de som) talvez seja o grande atrativo da obra. Não que Crowley não tenha se esforçado para que o produto final fosse eficiente. Estamos diante de um material respeitável, mesmo que algumas abordagens se revelem desgastadas pelo excesso de obras parecidas. Um exemplo são as montagens de início do primeiro ato, que comunga uma trilha genérica de um suspense que não existe, com inúmeros planos-detalhes para telegrafar intenções – até que, como sempre acontece, nos é revelado que o relevante da vida daquele personagem será contado via flashback.

Theo, por sinal, é um protagonista bem estruturado – reflexo óbvio do filme ser a adaptação de um livro vencedor do prêmio Pulitzer. Oakes Fegley, caracterizado quase como  o Teddy de Corey Feldman em “Conta Comigo”, defende de maneira competente esse garoto que carrega certo sentimento de culpa pela morte da mãe. As pequenas alterações de conduta, quando ele se aproxima de certo pedantismo para tentar fugir da investigação do atentado, encaixa bem. É discutível a maneira adulta demais como Theo se comporta em determinadas situações, porém, quem já teve sua maturidade forjada no luto compreende que não há nenhum absurdo naquelas representações. O invólucro de “O Pintassilgo” é que acaba desabonando toda essa trajetória promissora do líder do elenco. Com personagens e tramas se inserindo de maneira pouco desinteressadas, todo o verniz que faz da obra um produto luxuriosamente desenvolvido não se coaduna com tanta despretensão no desenrolar dos fatos.

Tanto é verdade, que a frieza quase uníssona da gama de personagens, parecendo sempre esperar o pior, causa um incômodo que só é percebido quando Boris entra em cena. Já no meio do segundo ato, quando parecia que o engarrafamento de pessoas circulando em cena chegava ao limite, Finn Wolfhard dá certo ganho de potência ao filme. Revelando sintonia e cumplicidade com Theo, seu amigo é o único que parece pulsar pela vida – mesmo também perdendo a mãe ainda novo. A montagem de Kelley Dixon, em seu primeiro trabalho para os cinemas, deixa escapar na fase do filme que se passa em área desértica dos Estados Unidos, potenciais cenas que afagariam o coração dos amantes de cultura pop. Uma delas envolvendo uma piscina e uma música do Radiohead, por exemplo, sendo melhor trabalhada seria bem marcante. De certo o longa-metragem quer se manter clássico, sem ceder espaço para o frescor de uma edição mais vibrante.

Esse arco dramático complexo, exigindo uma estrutura narrativa muito extensa, faz com que “O Pintassilgo” deixe de impactar justamente nas nuances que salta aos olhos. Retomando essa ambientação classuda a partir da figura de Ansel Elgort, a importação da maneira de lidar com os desejos sexuais oprimidos da Hollywood da Era de Ouro é pouco explorada, quase um reflexo acidental. O mesmo acontece com a mudança no perfil da personagem de Nicole Kidman, que se pauta na passividade da relação familiar na primeira linha temporal – quando ela é parte de um mecanismo engessado que envolve marido e filhos menores – para uma senhora de certa autonomia, que acredita estar conduzindo corações e mentes das pessoas próximas na outra dimensão da montagem. A obra encontra seu tom, mas não vai além da proposta.

Aliás, o incômodo maior do longa-metragem é buscar soluções fáceis para grandes questões que o constitui, após duas horas e meia de tanto tocar a bola para o lado, sem objetividade. Por inúmeras veze o filme se utiliza de coincidências inimagináveis e incompatíveis com a lógica do roteiro asseado. Momentos agudos, em que relações são ajustadas e conceitos morais são construídos ou destruídos, exigem do espectador uma fé profunda de que esbarramos com nosso destino com a mesma frequência com a qual acontece com Theo. Justamente por abrir mão de elementos constitutivos fundamentais a despeito de sua longa duração, “O Pintassilgo” deixa grandes lacunas em quem pauta a experiência cinematográfico no exercício do poder de convencimento. Falha miseravelmente ao transformar ingredientes selecionados e misturados com tanto refinamento, em um prato que peca no excesso do tempero da ingenuidade. Alimenta quem tem fome de cinema ou não faz questão de variar o cardápio.

 

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