O Paradoxo da Democracia

A Difícil Relação entre Capitalismo e Democracia

Por Roberta Mathias

Durante o Festival do Rio de 2019

No livro “Políticas da Escrita”, de 1995, o filósofo Jacques Rancière define o que seria partilha do sensível (nome de livro posterior do mesmo):

“Pelo termo de constituição estética deve-se entender aqui a partilha do sensível que dá forma à comunidade. Partilha significa duas coisas: a participação em conjunto comum e, inversamente, a separação, a distribuição em quinhões. Uma partilha do sensível é, portanto, o modo como ser determina no sensível a relação entre um conjunto comum partilhado e a divisão de partes exclusivas”

O filme “Paradoxo da Democracia” de Belisário França está na Mostra Fronteiras do Festival do Rio de 2019 por combinar uma narrativa que inclui diversos países e seus questionamentos políticos e sociais desde os inícios dos anos 2010 até os dias atuais. O Brasil é um desses países, mas Belisário inicia a trajetória com imagens de manifestações ocorridas na Grécia, Espanha, Estados Unidos, Egito, Turquia nos levando a entender que a proposta é apresentar (sem esgotar ou dar conta) as diversas crises que se espalham pelo mundo em um sistema que parece prestes a colapsar.

Ao trazer a reflexão de especialistas como o próprio Rancière, Luiz Felipe Pondé, Angela Alonso, Juan Carlos Monedero, Yascha Mounk, entre outros, o filme novamente ressalta sua disposição para debater múltiplos olhares sobre a democracia, mas também revela uma construção narrativa que segue rastros ou pistas, pois somente assim poderia dar conta da diversidade de movimentos populares que se espalharam pelo globo – plano ou não – desde a Primavera Árabe. É Pondé um daqueles que aponta a necessidade de perceber semelhanças, mas também de ressaltar as diferenças entre os movimentos. Se há algo em comum (e há!) é o descontentamento com o sistema econômico e político que nos governa. Porém, as soluções podem transitar entre movimentos mais à esquerda ou mais à direita e nenhum de nós parece ter achado uma solução, se não definitiva – lembrando que todos os sistemas políticos são construções das sociedades – ao menos, durável ao capitalismo.

Ao trazer também para narrativa os motivos dos manifestantes de diversos países “O Paradoxo da Democracia” parece querer ressaltar a impressão que muitos de nós já tínhamos sobre as manifestações de 2013 no Brasil, por exemplo. Os motivos são os mais diversos. E aí está uma das dificuldades centrais que a contemporaneidade enfrenta: como combinar Capitalismo e Democracia? Como viver em um sistema que visa o lucro sem interferir no bem-estar da população? Sendo essa a pergunta central, o próprio diretor já havia anunciado em sua apresentação dificuldades concretas da produção do filme: a edição, por se tratarem de imagens registradas em diversos países ao longo da última década e a dificuldade de, pela primeira vez, abordar um tempo atual e extremamente debatido.

A dificuldade encontrada por Franco é a mesma que sentimos ao debater esses movimentos ou alternativas possíveis ao capitalismo, seja na academia, seja em uma mesa de bar. O fato de ainda não termos uma resposta enriquece o filme, que deixa o debate em aberto e parece uma provocação, mais do que uma tese.

Ao começar com os panelaços em 2011 e ao terminar com o movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos, “O Paradoxo da Democracia” pontua a multiplicidade de demandas e a pulverização dos corpos políticos. Em uma análise bem interessante, Monedero explica como o capitalismo foi sendo desconstruído ao longo dos últimos 50 anos. Vivemos em um sistema falho – como todos que poderemos construir-, mas como uma grande diferença. Agora sabemos que ele é falho e estamos dispostos a reivindicar uma alternativa outra para nossas sociedades.

Se a “autoajuda coletiva se chama política”, como um dos especialistas diz, a nossa saída teria que vir através dela. Será que estamos também dispostos a dialogar com o “outro”? Será que algum dia estivemos? A construção dos sistemas políticos modernos e contemporâneos parece ter sua base mais sólida em uma fundação da diferença e, não em uma fundação da igualdade. O que vivemos parece ser o esgarçamento dessa fundação em um mundo no qual conseguimos avançar no que diz respeito às escolhas individuais, mas só aumentamos no que diz respeito à distribuição de rendas. Não se trata, no entanto, de escolher entre um ou outro, mas conjugar os dois. Esse é o grande paradoxo da democracia que traz consigo uma constatação inevitável: capitalismo e democracia não andam de mãos dadas.

O que iremos fazer com essas constatações e com os movimentos que crescem ao redor do mundo só terá um resultado fértil – para fugir da palavra produtivo associada ao regime capitalista – caso possamos chegar uma solução conjunta. Talvez tenhamos que entender no processo que precisamos ser menos produtivos e produtos. Mais aguçados e atuantes.

 

 

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