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O País da Pornochanchada

Eterno retorno

Por Pedro Mesquita

Durante o Festival do Rio 2022

O País da Pornochanchada

É inegável que o tópico das pornochanchadas tem rendido aos seus estudiosos — sejam estes acadêmicos, sejam cineastas — extenso material de pesquisa. Um notável e particularmente bem sucedido exemplo disso é o longa-metragem “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” (2017). O filme é fruto de um extenso trabalho de pesquisa sobre a produção cinematográfica do gênero das pornochanchadas, que teve o seu ápice durante a década de 1970. Utilizando-se exclusivamente de material de arquivo — o filme é integralmente composto de trechos de outros filmes — e recusando o uso de artifícios como a narração em off, o filme de Fernanda Pessoa se faz valer somente da montagem para construir a sua retórica. Através da seleção de trechos e da justaposição deles, percorremos um vasto corpus a fim de verificar de que modo as pornochanchadas representam um sintoma de questões sociais e políticas da sua época; de que modo elas espelham — refletindo ou, no mínimo, refratando — a realidade da sua época.

Do parágrafo inicial deste texto depreendemos duas coisas: primeiro, que “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava” é um ótimo filme e merece ser visto. Segundo, que documentários posteriores que se debruçam sobre a mesma temática têm agora um desafio em mãos: trabalhar o assunto com criatividade, com uma abordagem minimamente única, distinta, que justifique a sua existência. É esse desafio que “O País da Pornochanchada” vem tentar cumprir, e cujo êxito trataremos de julgar agora.

Assim como “Histórias Que Nosso Cinema (Não) Contava”, “O País da Pornochanchada” é um filme sobre as pornochanchadas. Mas, quanto aos métodos, os dois se diferenciam absolutamente. Nesse sentido, o aspecto que torna o filme de Adolfo Lachtermacher único é o seu caráter ensaístico, pessoal. O diretor lança mão da narração em primeira pessoa e, por vezes, coloca-se em quadro como um personagem em seu próprio filme. O motivo disso? Adolfo é filho de um prolífico diretor de pornochanchadas, Saul Lachtermacher. Portanto, a atividade de investigar a história de seu próprio pai acaba se misturando àquela de investigar a história das pornochanchadas; da primeira, nasce o interesse pela segunda.

Este lado mais pessoal do filme é bem sucedido por alguns motivos. A narração de Adolfo é uma delas: os seus comentários, por vezes bem-humorados, conferem ao filme a devida leveza para que a experiência não se torne cansativa. Além disso, o caráter casual da narração é revigorante: não estamos diante de um documentário televisivo engessado, em que o narrador se comporta à maneira de um artigo da Wikipédia, com linguajar neutro e preciso; do contrário, Adolfo realiza toda sorte de observações de caráter social, político, cultural sem precisar lançar mão de referências ou especialistas que os comprovem. A abordagem ensaística permite, afinal, essa maior liberdade na construção das ideias.

O filme, por outro lado, não se centra exclusivamente no seu ponto de vista. A partir do momento em que Adolfo visita a Cinemateca do MAM, a fim de recuperar um filme perdido de seu pai, a figura de Hernani Heffner (diretor da Cinemateca) entra em cena. Ele serve ao filme como uma voz de autoridade, a partir da qual “O País da Pornochanchada” começa a manifestar o seu lado mais historiográfico e didático. Por um lado, isso é bom: Adolfo não comete o mesmo deslize de alguns cineastas que se aventuram na “escrita de si” realizando filmes excessivamente “ensimesmados”, cujos conflitos particulares não encontram muita ressonância com o espectador (um bom exemplo desse tipo de cinema seria, talvez, o recém-lançado “Eneida”); ele, ao contrário, consegue ligar a sua história particular à história geral do cinema e da sociedade brasileiras. Por outro, nem tanto: ao optar pelo didatismo e pela figura do especialista, aproximamo-nos um pouco daquela forma documental televisiva supracitada. O filme perde o seu caráter distinto e ganha a feição de uma aula de história; uma boa e competente aula — visto que ministrada predominantemente pelo ótimo Heffner —, mas uma aula assim mesmo.

“O País da Pornochanchada” oscila, portanto, entre um relato mais pessoal, sobre a experiência única de um rapaz que testemunhou a carreira de um diretor de pornochanchadas, e um mais impessoal, sobre a história das pornochanchadas. Quando pende para o primeiro lado, nos encanta mais; quanto pende para o segundo, adquire talvez uma função social mais elevada, mas abre mão do seu caráter distinto. Felizmente, em nenhum momento decreta-se o triunfo de uma dessas metades sobre a outra; no fim das contas, o equilíbrio entre elas faz bem ao filme.

3 Nota do Crítico 5 1

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