O Pai

A geleia como a cura do luto

Por Fabricio Duque

Estreia VOD Petra Belas Artes

Em “A Floresta dos Lamentos” (2007), a realizadora japonesa Naomi Kawase nos apresenta o lugar do luto como o fim do luto. É uma jornada de imersão individual. No filme em questão aqui, “O Pai”, esse sofrimento é compartilhado, familiar e semelhante pela necessidade do contato com a natureza. O longa-metragem conduz-se todo o tempo pelo ceticismo versus abuso de vulnerável, estes mais idosos que aceitam, pelo poder da fé transcendental, as “dicas” de um “charlatão”. É também sobre o estreitamento de uma conturbada e distante relação entre um pai e um filho.

“O Pai” inicia-se em um enterro. Atraso da chegada, cerimônia religiosa típica grega-búlgara, um toque-sapo de celular e a estranheza inicial do marido fotos em querer tirar fotos da esposa morta. Sim, a morbidade orgânica cria afinidades com o espectador, que, sem questionar, adentra nas particularidades daquela história. E que reitera que cada um sofre de um jeito. Cada reação é particular demais. Uns se embrenham na floresta a fim da libertação, outros, aqui, por exemplo, partem a uma viagem espiritual a fim de saber a última mensagem da falecida.

É um filme de detalhes. De mascarar a dor com a realidade do dia-a-dia. Recolher as roupas ainda estendidas no varal, procurar fotos em uma biblioteca durante a reunião de família “camarada”, as conversas naturalistas sobre contato astral com os mortos do “campo de torção” de um “líder sensitivo” (um culto-seita à moda de “Midsommar – O Mal Não Espera a Noite”, de Ari Aster), a pressão-cobrança do filho impaciente e apreensivo para retornar sua vida normal, tudo soa espontâneo, principalmente pela câmera próxima, de cortes rápidas, quase mosca.

Mas “O Pai” causa um incômodo no espectador. Uma vírgula deslocada que muda o tom da ambiência cênica quando suas personagens se comportam estranhas demais. O filho, Pavel (o ator Ivan Barnev), por exemplo, não se define uma personalidade, sempre solto, hiperativo, perdido e mal construído. Tentando “dançar” em vão no “ritmo deles”, sem conseguir manter uma “conversa sensata”. Não se sabe até agora o porquê de enganar o pai, a mulher e o trabalho. Não se explica a razão. Talvez ele não seja mais dali. Talvez aquilo tudo quebre a defesa que aparentemente estava intacta. Talvez ele queira impedir os atritos. E não presenciar a “loucura” do pai, Vasil (o ator Ivan Savov), que escuta os passos de sua mãe. Uma mensagem do além o vaso favorito ter sido quebrado? Sim, a mente é uma caixa de surpresas e encontra uma imaginação contra cada tentativa de tristeza. De receber “brincadeiras do túmulo”.

O fora do eixo não para por aí. Há ainda alguns alívios cômicos, como dormir abraçado com seu “velho” e/ou sair no meio da noite para procurar geleias. “Nunca é o momento certo para um enterro”, diz o pai sobre o “medo” do pimpolho de contar a verdade a sua mulher. Pergunta-se novamente: Qual a razão da hesitação? Nada. Nenhuma resposta. Sigamos. Contudo, esse passado pode ser explicado nos filmes anteriores, visto que este é a terceira parte do projeto paralelo a uma trilogia inspirada em notícias de jornal, da qual fazem parte “A Lição” (2014) e “Glory” (2016).

“O Pai” é também um confronto de “energia informacional”. De um pai “homem feito” que “joga na cara” do filho as dívidas existentes. E, em um insight iluminado, Pavel acorda de sua urgência mais fraternal, preocupado e carinhoso com Vasil, aventurando-se entre noites na floresta de meteoritos caídos e na prisão (após roubar do policial um doce de geleia). Que é encontrado sem roupas e levado a um hospital psiquiátrico. Com choque “pós traumático” e “lunático”. Outra ponta solta? Outra tentativa de criticar o sistema governamental? Mas paradoxalmente Pavel ao entender se reconecta com o pai. Não, não para por aí. Uma sequência de escolhas descompassadas. Almoços estranhos, caronas em carro funerário e até um novo roubo: de uma charrete.

Vasil comporta-se como uma criança em um processo de aceitação, de que precisa negociar e aprender a viver sem a esposa. Pavel ao voltar para pegar seus sapatos, descobre que a mãe foi atriz e entende todas as ações do pai, motivado por culpa e curiosidade, fazendo de tudo para expurgar as pendências. Ingênuo, antiquado, conservador, idiossincrático e não antenado com as novidades tecnológicas, Vasil é salvo por seu filho graças ao poder da caixa de mensagens de voz. E dessa forma, em um pouco mais de cinco minutos, “O Pai” mostra toda a potência de sua história. Quando o silêncio se transforma em verdade e comunicação a fim de realizar o último desejo da falecida: fazer geleia e não deixar as frutas estragarem. É sutil e preciso, ainda que tenha demorado demais e que fosse transmitido com uma pungente falta de sintonia.


O filme estará disponível no Now, VivoPlay, OiPlay, Looke e SkyPlay, a partir desta quinta, dia 8 de outubro.

Trailer

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