O Outro Lado da Memória

A honestidade no processo híbrido

Por Vitor Velloso

André Luiz Oliveira, o diretor de “Meteorango Kid: Herói intergaláctico”, retorna a sobriedade em 2018 para lançar o documentário “O Outro lado da memória” a fim de construir os passos de seu filme não terminado, uma adaptação de “Viva o povo brasileiro” de João Ubaldo Ribeiro.

O filme do ano passado vai contar a história dessa produção que se estagnou pela falta de tempo para a adaptação. “O Outro Lado da Memória” foca-se em discutir questões da sociedade brasileira enquanto traça seu paralelo com a literatura ubaldiana, tal postura possui o mérito de construir uma reconstrução histórica dialética que vai cobrar da historicidade nacional, uma necessidade de revisão da própria diretriz. Enquanto há uma cobrança da concepção que se dá na cultura brasileira, acompanhamos parte da trajetória da feitura do longa não finalizado. Tal montagem paralela se dá através da simulação de trechos do livro e da filmagem feita no início do século.

Recolhendo depoimentos que vão agregar na construção geral dos conceitos que Ubaldo explora em sua ficção, com falas de antropólogos, sociólogos e historiadores. O discurso realizado se apoia majoritariamente em diálogos presentes na obra original, sendo usados como uma costura narrativa que auxilia gravemente a montagem em sua estrutura final. Não à toa, esse vai e vem de ficção e realidade, se mantém como uma forma fílmica que concretiza o projeto em uma versatilidade híbrida, transitando entre os diferentes tipos de narrativa, ficcional e documental. A escolha compõe um retrato diverso capaz de abarcar vertentes distintas de uma contemporaneidade parcialmente recente, com pensamento crítico e que contesta a reatividade das questões primárias impostas pela sociedade.

E esse é o trunfo que André explora, um misto de autoria e reverência que se fundem para fixar um ponto de vista anacrônico diante de um mundo mutável, mas que deve reconhecer que História não se trabalha com factóides, muito menos com omissão. Não por acaso transfere parte da narrativa à quem esteve presente no processo de produção, para que haja multilateralização das proposições e materialize os fatos em uma linha dialética. A atitude que ultrapassa o campo estético, assume, politicamente, o dever de ser um espelho de um roteiro que não encontra seu fim na individualidade, mas sim na união dos elementos presentes, seja de ordem prática ou não.

Ao permitir que o público assista os testes de elenco, o diretor aproxima o espectador de uma utopia tão pautada na realidade que transcrevia literatura em História, ao passo que ficcionaliza a veracidade daqueles corpos, obrigando-o a permitir o didatismo nas interpelações dos entrevistados, para que fique claro o material fonte de todo aquele aparato lírico e complexo em sua abordagem enquanto criação. Seja por parte do Ubaldo ou André, o mais curioso é a projeção humilde que o mesmo faz sob a figura do primeiro, sempre o reverenciando como quem reconhece a transcriação de maneira fabular e livre, sem a pretensão de adicionar ou retirar.

A inclinação, que fica clara, a um projeto novo que pretende cumprir com falhas do antigo, dá o rosto do amadurecimento do realizador. O processo de admissão de equívocos passados é uma problemática frequente neste estilo de documentário. Mas se ele não falha neste aspecto, erra ao buscar traduzir parte deste sentimento generalizado a um público tão barroco quanto o próprio texto original, sem apresentar ao espectador a natureza dessa camadas. Tentando fazer isso de maneira expositiva, mas não construtiva, sem permitir o debate, pois a montagem salta de uma cena à outra em ode geracional de um tempo que se fez presente e partiu deixando saudade. Ainda que seja sóbrio o suficiente para não permitir a nostalgia tola que assombra parte de nosso passado. Compreendendo tal atitude como uma fugaz reação da progressão daquilo que nos consome diariamente, uma determinação temporal que evoca a memória, projetando o futuro em espécie de reflexo do fantasma do passado, não de maneira a nos assombrar, mas sim uma revanche da verdade.

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *