O Olhar Misterioso do Flamingo
Dignidade em uma aridez social
Por Vitor Velloso
Festival de Cannes 2025
Uma parcela significativa da cinematografia latino-americana busca representar as dores e lutas de pessoas à margem da sociedade, ou que, em algum recorte específico, sofreram com alguma particularidade ainda mais aguda. “O Olhar Misterioso do Flamingo”, dirigido por Diego Céspedes, apresenta um interessante retrato que compreende suas personagens em um contexto de preconceitos, lutas e dores em uma comunidade distante, que muitas vezes prefere tapar os olhos para os problemas internos e ignorar a dor do próximo, como uma espécie de proteção que pode ter vários nomes e manifestações.
Vencedor do prêmio Un Certain Regard no Festival de Cannes de 2025, o projeto abraça os sentimentos de seus personagens e a narrativa para construir um delicado e brutal retrato de vida, assimilando a epidemia de HIV/AIDS como personagem central de sua construção dramática, pouco envergonhada de expor as fragilidades de seus protagonistas e seus sentimentalismos diversos. Aliás, a obra de Céspedes opera em uma frequência emocional que desafia a passividade de quem assiste, mesmo que, nesse exercício de explicitar a conflituosa relação entre orgulho e dignidade, haja um processo de tornar a experiência um tanto enfadonha em determinados segmentos.
O vilarejo minerador, de relações trabalhistas construídas de forma um pouco mais apressada, explicita uma esterilidade das trocas que ali são estabelecidas, refletindo sobre a materialidade do lugar como uma imposição geográfica e geológica, mas concebendo os misticismos e fantasias latino-americanas para construir suas angústias, provocando sentimentos no espectador. Não por acaso, “O Olhar Misterioso do Flamingo” permite um exame curioso sobre suas características formais: por um lado, existe uma entrega honesta de diversos elementos dramáticos que compõem sua narrativa; por outro, há um esforço pouco orgânico de fazer esses sentimentos pulsarem, o que pode ser confundido com um certo maniqueísmo em certas passagens. A proposição das alegorias, através desses misticismos, mergulha na recorrente leitura que se tem do elemento fantástico nas produções recentes, funcionando como uma espécie de apoio para o desenvolvimento e abraçando a metáfora como um agente facilitador dessas construções.
A escolha de Céspedes em omitir a nomenclatura científica da enfermidade permite que o filme atravesse entre o seu realismo — mágico quando lhe convém — e uma denúncia moral da situação e de parte dos personagens. Aqui existe um moralismo pouco sofisticado, que acaba prejudicando sua própria crítica. De toda forma, há um elemento interessante na proposta, que, compreendendo a visão como arma de aniquilação silenciosa, provoca um interessante gatilho estético e dramático, transformando o olhar de forma crucial para o funcionamento da narrativa. O roteiro, assinado pelo próprio diretor, instiga que o estigma se converta em mito, onde a ignorância transforma a janela da alma em um vetor de contágio e exclusão, funcionando enquanto um conceito central e norteador.
Infelizmente, o filme tem dificuldade de ir além dessa proposta, precisando fazer de Lidia (Tamara Cortés) um ponto nevrálgico do funcionamento dessa lógica. É através de seu deslocamento que acessamos a Casa Alaska, um reduto de resistência na região que permite mais que a mera sobrevivência — já árida o suficiente —, em atrito com a dessecação moral da mineradora. Habitado por travestis e pessoas trans sob a liderança de Mama Boa (Paula Dinamarca), o local é uma heterotopia fundamental: um espaço de acolhimento real que abriga sonhos de quem foi banido do tecido social “comum”. Não há como não lembrar da colaboração de Guto Parente e Pedro Diógenes em “Inferninho” (2018) e como parte dessas produções recentes têm refletido sobre esses redutos, físicos ou não, como espaços de sociabilidade aberta. Talvez tenhamos de realizar uma pesquisa mais acurada sobre os motivos dessa manifestação narrativa recente, sem especulações baratas que visam a terminologia como royalties, mas ainda é interessante de se mencionar.
A alma, e o fantasma do filme, reside em Flamingo (Matías Catalán), cuja performance transborda uma melancolia radiante. Alvo da hipocrisia local, ela personifica o conflito central: os mesmos mineiros que buscam na Casa Alaska o prazer que negam à luz do dia são aqueles que, tomados pela superstição, passam a clamar pelo “expurgo” da peste que acreditam emanar daquelas mulheres. Ponto de luz em meio às paisagens geográficas, sociais e, porque não, políticas, Flamingo surge como referência de energia e elegância, ponto de força que contrasta e reflete as frustrações do vilarejo, expondo seu ódio, através da incompreensão e sedução. A analogia costuma ter vida curta e aqui o referencial do animal até que funciona de forma relativamente objetiva.
Por fim, a jornada de Lidia não entrega uma redenção facilitada, mas uma interrogação sobre a memória e o direito à beleza. Embora o excesso de simbolismo possa, por vezes, retirar o peso da urgência narrativa em favor de uma cadência contemplativa, o filme sustenta sua tese de que a utopia é um esforço paliativo e de risco. “O Olhar Misterioso do Flamingo” encerra-se como um convite amargo para reconhecer dignidade onde a sociedade insiste em enxergar apenas a peste, reafirmando que, no deserto da alma humana, o olhar de acolhimento permanece como o último reduto de soberania.




