O Melhor Verão de Nossas Vidas

O melhor filme que se pode fazer

Por Adriano Monteiro

O destino de alguns participantes de reality show é quase sempre incerto. Há um limiar entre o sucesso efêmero e o esquecimento absoluto. O que não inclui apenas casos como BBB (Big Brother Brasil), A Fazenda e o fenômeno De Férias com o Ex, programas que jogam luzes para talentos musicais também entram nessa onda. O The Voice Kids é exemplo de uma dinastia da televisão e do mercado fonográfico de abraçar novos talentos e lança-los carreira à fora. É o caso da girlband BFF Girls, formado pelas adolescentes Bia Torres, Giulia Nassa e Laura Castro. As integrantes se conheceram durante o reality e formaram uma parceria, que rendeu alguns sucessos musicais, canal no You Tube e, agora, filme. “O Melhor Verão de Nossas Vidas”, dirigido por Adolpho Knauth, é o típico produto midiático sem muitas pretensões de ser uma obra de arte, mas que vai agradar o seu público-alvo entregando o esperado.

Aqui estamos diante de um delírio adolescente norte-americano, de nada abrasileirado. O enredo é sobre três melhores amigas, estudantes do ensino médio, aprovadas para participar do Festival do Sol, uma espécie de palco musical no litoral de São Paulo. O único impedimento de um verão perfeito é a recuperação de final de ano. As meninas começam a traçar um plano para burlar a confiança dos pais e irem atrás de seus sonhos. Ao seguir uma estrutura de jornada convencional a filmes colegiais do gênero, não surpreende, mas os realizadores levarem tão a sério a ponto de entregar uma mídia rasteira, sim. O que sugere uma despreocupação em inovar com o roteiro e fórmulas. Desde o romance ensaiado, o nerd sem jeito com as meninas, a patricinha má até o alívio cômico sem graça protagonizado por Maurício Meirelles. Uma narrativa travestida de uma realidade inoperante em nenhum contexto nacional, mas que alimenta sonhos coletivos da juventude.

“O Melhor Verão de Nossas Vidas” é um filme para fãs. Feito com desleixo, principalmente com a direção de atores. O texto parece forçar uma naturalidade inexistente, mesmo quando tenta arrancar risos ao elucidar casos da cultura pop, como a rixa entre Taylor Swift e Kanye West. O longa tenta entrar em contato com a cultura das redes sociais com nenhuma discrição a começar na, talvez, melhor cena do filme, os créditos iniciais montados como uma timeline do Facebook. A montagem é cansativa ao esgotar a rolagem de um touchscreen para transições, assim como as múltiplas telas em momentos de ação e os slow motion em pré-planos de beijo. O ponto positivo fica a cargo da atriz Bela Fernandes, ao interpretar uma deficiente auditiva, com o frescor necessário para o tema. As músicas de maior sucesso do grupo também são tocadas, confirmando o caráter da produção de agradar o seu público sem ao menos tentar agregar novos.

As BFF girls funcionam em alguns momentos de cumplicidade entre elas, é possível enxergar química e o mínimo de naturalidade ao conversarem sobre seus desejos. O que é deslocado do todo é o contexto artificial em que estão inseridas. De uma lógica sem respeito ao próprio tempo diegético da obra, quem dirá mundano. A ideia de um verão longe dos pais, em uma praia deslumbrante do Guarujá, com adolescentes de classe média-alta, puros, sem nada a pôr em risco sua integridade, soa cansativo. Não há nada de ruim em ser alienante, obras artísticas podem ou não ter compromisso com a realidade (as vezes é preferível), mas não trabalhar para que seja verossímil já é um problema. O caso em questão é problemático, ao ser irresponsável e desonesto com quem assiste, sejam eles fãs ou não. Nivelar por baixo não deveria ser a opção utilizada por realizadores em busca de maior aceitação do público, seja lá qual for em “O Melhor Verão de Nossas Vidas” .

Trailer

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