O Lodo

Exercício prático de gênero

Por Vitor Velloso

Crítico convidado pela Mostra de Tiradentes 2020

O novo longa metragem de Helvécio Ratton (de “O Segredo dos Diamantes“, “O Mineiro e o Queijo“), exibido no segundo dia da 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, “O Lodo” é a exposição da fragilidade da velha guarda cinematográfica brasileira. Disputando diretamente com “Os Escravos de Jó”, o filme se esforça em expulsar seus espectadores da sala de cinema, conseguindo um número menor que o filme de abertura, mas ainda assim, bem sucedido em seus avanços contra a experiência alheia.

Teoricamente, o projeto é um mergulho na psique de um homem que recusa tratamento psiquiátrico e esconde seus traumas através dessa fuga constante de uma exposição maior de seus problemas. Esse jogo de gato e rato, que funciona como o eixo de “O Lodo”, é uma das bases mais canhestras que a narrativa poderia assumir, “Dr. Pinkerton” (Renato Parara) e “Manfredo” (Eduardo Pereira) são duas caricaturas assombrosas que se esbarram com constância durante a projeção, mas parecem desafiar a lógica interna da história, pois aqui, o médico persegue seu paciente, insiste em suas consultas, faz chantagem, processa, transforma a vida do protagonista um verdadeiro Inferno, com as palavras de “quero te ajudar”.

O julgamento aparente que o filme toma para si, quase em literalidade em determinado momento, é que o Estado deveria vir a intervir em contratos inexistentes, realizados oralmente durante uma consulta psiquiátrica, além disso, o juiz julga necessário aplicar uma multa ao paciente, por deixar de ir nas conversas. Tal postura, que sustenta a película, até seu final, tenta levar uma curiosidade em sua estrutura, buscando manter um mistério acerca da irmã do protagonista, um aparente trauma que há em sua vida, porém a previsibilidade de todo o drama é tamanha, que no primeiro diálogo entre os personagens, fica claro o que Manfredo quer esconder.

Esse amontoado de clichês de “O Lodo” se traduz na trilha sonora igualmente, que faz questão de ser completamente expositiva para cada emoção que o filme quer projetar em seu público. Se temos uma cena de perseguição, a música faz questão de reforçar a ideia que estamos em uma situação de aparente perigo. Essa tentativa de brincar com o gênero da obra, seja através de sua estrutura ou mesmo de suas aparências primárias, funcionam parcialmente, pois acaba conseguindo atrair o espectador para aquela cafonice monumental que está sendo projetada na tela, ao mesmo tempo que afasta pela exposição dos diálogos, da falta de lógica na conjuntura da história. Para cada um desses elementos, parte se instiga, parte desiste de “O Lodo”, que busca desafiar constantemente essa sua análise de gênero.

Seccionando seus personagens e utilizando eles quase de maneira prática, o longa aplica esses artifícios mais programáticos como um gatilho narrativo sem vergonha (a expressão aqui é dúbia), facilitando todo o processo digestivo daquela história, mas fragilizando suas relações, já que quase todo mundo se torna descartável, sendo apenas um mero agente para as questões de Manfredo. Em parte, tal centralização excessiva na figura de seu protagonista, é parte da curiosidade geral que o filme pode gerar em algumas pessoas, pois cada alfinetada que Helvécio Ratton dá em seu personagem, vira uma proposta que catapulta seus problemas e o força a repensar sua conduta quanto a consulta com o “Dr.Pinkerton”.

Ainda que seja interessante ver um diretor do calibre de Helvécio testando questões mais imediatas na forma, em seu novo projeto, a atitude demonstra a fragilidade do mesmo em conseguir sustentar sua proposta enquanto uma diretriz que assume as nuances que se pode expor no processo de produção. Não só por falha direta, mas as ferramentas que são utilizadas aqui, não possibilitam desencadeamentos mais extensos para a narrativa e acaba enclausurando a mesma neste jogo pouquíssimo honesto de como funciona as relações dos personagens em relação à história que eles estão servindo.

Divã e a perseguição canhestra de um financiador de julgamentos duvidosos, acabam protagonizando a obra que parece brincar consigo mesma, enquanto aplaude os esforços monumentais de aplicar teoria de gênero cinematográfico à sua forma, como um ápice do mesmo, o resultado de “O Lodo” não é diretamente diferente do que se pode imaginar de uma pretensão tão tardia quanto essa. Mas ainda assim, o filme não desgraça a mente do espectador como o longa de abertura e consegue levantar alguns bons comentários pelo resto da noite, mas sem dúvida, até o fim da Mostra, ninguém se lembrará.

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