O Livro dos Prazeres

As múltiplas representações

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de São Paulo 2020

“O Livro dos Prazeres” é uma adaptação da obra de Lispector para o cinema. É comum reconhecer nos textos da autora uma singularidade no trabalho com as personagens, o que torna um processo de reimaginação, difícil mas sempre possível. O filme de Marcela Lordy é um convite ao estudo de personagem, onde questões existencialistas irão nortear as passagens na narrativa e manter algumas discussões em aberto. Existe aqui um problema de inserção do espectador diante do universo apresentado, questões particulares vão moldar a experiência. Com toda essa base existencialista, o público precisa entrar nos tomos como quem reconhece as representações ali, caso contrário, o longa vai soar absolutamente distante ou uma tensão problemática de produção burguesa. 

Veja bem, leitor mal-intencionado, não está escrito acima que as questões apresentadas no filme são exclusivamente burguesas, está referido à produção. Seguindo. O longa abraça um modelo de cinematografia da classe dominante, capta suas cenas como uma fórmula pré-definida, os enquadramentos são expositivos em seus graus de leituras, os diálogos tentam implementar um mistério diante do público, mantendo seu didatismo coerente. Todas essas características são resoluções pragmáticas de um desenvolvimento narrativo que mira uma janela de mercado específica, o eixo artístico de consumo dos pólos abastados. As referências são normalmente dadas a partir desse existencialismo próprio da classe, onde existe uma ordem mimética de sobreposição de ideias, um reforço constante de axiomas pré-definidos por um mercado cinematográfico. 

É mais um filme sintomático de um cinema que transou de maneira obsoleta, suas temáticas e estéticas, com a burguesia. Caso sério a ser estudado no cinema latino-americano, em especial o brasileiro, que iniciou essa transa à décadas e chegou ao seu grau máximo de inocuidade. É a manutenção eterna das questões políticas que vão se reverberando para o exterior cinematográfico, não é difícil enxergar no Brasil contemporâneo todas essas influências. É uma pena que estamos caminhando para uma homogeneização de produção e produtos de consumo no cinema, seguindo as rédeas dadas pelos estrangeiros (a co-produção não é um acaso). 

“O Livro dos Prazeres” não é necessariamente inventivo em nenhuma de suas investidas, seguindo um modelo padronizado, mas consegue revigorar algumas das discussões narcísicas em relacionamentos e abusos absolutos. A grande questão está sempre envolvida na maneira como isso é feito. A linguagem que acompanha a fórmula, se vê tentada, constantemente a tornar prosaico tudo aquilo que foge à normatividade da estrutura narrativa, não à toa, a receita de bolo nos entrega uma cena colorida, que tenta romper com a linguagem tradicional apresentada pelo filme. A festa dos professores é um sintoma desse modo de produção internacionalizante. O longa inteiro entrega o básico e a formalidade de representação como uma dramatização adaptada, mas é necessário criar uma digressão para que o filme receba a aprovação generalizada. É interessante ver como esses modelos de produção se repetem na estrutura dominante de suas montagens, os momentos de viradas específicas também são dados através de uma rentabilidade possível, nas janelas de exibição, assim como o público-alvo zonasulesco padrão.

Se o caso não for esse, então o problema é ainda mais sério, provando que a cultura está estagnada pela classe dominante, em todos os setores possíveis. Ou seja, é uma produção para si, com rentabilidade espelhada e aplausos familiares. Não que isso seja um problema único de “O Livros dos Prazeres”, mas este é um sintoma grave das políticas e estéticas dos últimos trinta anos no Brasil. As seleções para os festivais é uma consequência normatizada, afinal a coprodução dá créditos absolutos à curadoria e o público cinéfilo dominante irá chegar ao deleite estético com todo o pragmatismo narcísico que encontrará na produção. 

Com alguns excessos de digressão, o texto acaba no momento seguinte lembrando que a obra de Marcela Lordy acaba sendo uma em meio às outras opções igualmente qualificadas pelo mercado internacional, mas não se destaca em seus vínculos, pois exige de si a mesma formalização regulatória dessa dominação de mercado. Uma pena, afinal o filme possui alguns recursos interessantes para serem utilizados, mas acaba caindo na formalidade de representação. Apesar da grande interpretação de Simone Spoladore o filme não rende muito. 

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