O Irlandês

Os Senhores dos Anéis

Por Fabricio Duque

Há filmes que um crítico de cinema sofre os efeitos de seu próprio ofício. São obras que deveriam existir sem a necessidade de análises e julgamentos. “O Irlandês” é um desses exemplos ao potencializar a dificuldade do exercício da criação, cujas linhas tornam-se definitivas. Em seu mais recente filme, com produção da Netflix, o diretor Martin Scorsese não só corrobora seu controle absoluto da direção como também prova que seus comentários recentes (de que filmes da Marvel não são cinema) estão bem embasados e respaldados nesta experiência de três horas e trinta minutos de duração ofertada ao público.

Sim, “O Irlandês” é cinema em sua essência mais primitiva, que se preocupa no apuro técnico do posicionamento da câmera (cada ângulo simboliza um direcionamento narrativo). Nós percebemos que acima de tudo é um filme cinéfilo (seu diretor foi um dos responsáveis por restaurar a cópia de “Limite”, de Mário Peixoto – assista aqui), distanciando-se da hipócrita moralidade sensível dos longas-metragens que se realizam atualmente. É direto, seco, orgânico, passional, impulsivo, racional, proposital, individualista e intrinsecamente humano. Scorsese nos reencontra com nosso lado mais animalesco, mais verdadeiro e com nossa violência, domesticada por regras e medos prisionais, algo como o que acontece no seriado “The Purge”. Purgar aqui não precisa esperar. E aqui, o vermelho sangue é a cor mais forte, servindo de metáfora à “pintura das paredes”.

Baseado no livro homônimo de 2019 “O Irlandês: Os Crimes de Frank Sheeran a Serviço da Máfia” do escritor americano (e investigador policial) Charles Brandt (que iniciou sua saga em crônicas no livro “I Heart You Paint Houses”, de 2004), o filme não precisa subir o tom para traduzir a violência. É naturalizada pelas ações, pela precisa interpretação ocular de seus atores veteranos (Robert De NiroAl Pacino e Joe Pesci) e pelas conversas que sugerem iminências, como um perigo-retaliação atmosférico e espreitado.

“O Irlandês” também é um jogo para encontrar os easter eggs, referências a seus filmes anteriores. Adentra-se em um submundo intimista de engrenagens, acordos e amigos por conveniência, tudo para proteger a “Família”, filosofia da máfia siciliana de “O Poderoso Chefão”, clássico de Mario Puzzo, eternizado nas telas na trilogia dirigida por Francis Ford Coppola. Nós percebemos “Os Bons Companheiros”, “Cassino”, “Taxi Driver”, “A Cor do Dinheiro” e principalmente em “Who’s That Knocking At My Door” (seu primeiro filme de 1967). É assim que esta “aventura” odisseia à moda de um “Forrest Gump, O Contador de Histórias da máfia” acontece pelo olhar particular deste icônico diretor judeu do Queens novaiorquino.

Pois é, caro leitor, é quase impossível mergulhar na passionalidade da crítica. Para “proteger” a obra, a tendência é sua padronização à técnica mais didática. Porém, não é justo que isso tenha que ser assim. Portanto, vamos liberar aqui nosso lado psicopata que guardamos a sete chaves. O longa-metragem é iniciado por uma narração que conta e ao mesmo tempo confessa o que aconteceu. Quase como um relatório policial comentado ao vivo. Os muitos personagens da história conseguem manter ritmo narrativo e afinidade com seu público. É nesse ponto que Scorsese brilha: quando prende a atenção como se fosse um bruxo carismático.

“O Irlandês” é um filme americano sobre períodos da Historia americana. Dessa forma a fotografia (irretocável) do mexicano Rodrigo Pietro (que volta a trabalhar com o diretor depois de “O Lobo de Wall Street” e “Silêncio”) precisaria ser nostálgica, melancólica e de sensação importada. Tudo para transpassar as consequências da “Política do Mundo” nos “negócios” desses “trabalhadores sociais”. De Fidel Castro ao assassinato de Robert Kennedy, passando pela birra-implicância do irmão do presidente Bobby, o longa-metragem conjuga metalinguagem com classicismo imagético. Intervenções-créditos e/ou os olhos-personagens inserindo o espectador e/ou as memórias das lembranças (como se perdêssemos a noção de tempo e espaço, visto que o passado é tão importante quanto o estágio do presente – com suas reais fotos de registros policiais da época que ajudam a desconstruir certezas) criam a normalidade do ciclo perfeito do ir, vir e do embasar mudanças, especialmente pelo jazz puro dos negros de New Orleans e pelo balé da câmera acompanhante, muitas das vezes em plano-sequência, que interrompem com cortes brutos e sem música nos diálogos. Em nenhum momento é encerrado o cruel humor-sacada espirituoso de “armar um país” com revólveres jogados no fundo do rio.

Outro maturidade que já foi rapidamente mencionada e que merece um aprofundamento é a figura do sangue, material, físico, bruto, como uma tinta que renova e resolve problemas. Assim entendemos melhor as obras de Quentin Tarantino, com suas conversas pré-mortandade. Não há também nenhum indício de suavização e tampouco julgamentos morais. Cada um aceita a condição em que está, explicitado, por exemplo, nos olhos cúmplices da esposa, que sempre soube desde o início em que “pé” estava se metendo. “O céu é alto para que os passarinhos não batam a cabeça quando voarem”, diz-se.

“O Irlandês” desperta sentimentos contraditórios. Nós gostamos de toda mise-en-scène porque somos errantes e nossos pensamentos não são puros. Pelo contrário. O que Scorsese tenta fazer é personificar essa emoção e deixá-la mais humanizada. Mais próximo de nós mesmos quando indivíduos plenos não monitorados. Há um ditado que diz “Deus não dá asas a cobras” e/ou “purgar” todo dia não é legalizado. Em uma das cenas aqui, a vingança ganha poder de satisfação pessoal. É um velho oeste no mundo até então civilizado. O que a Máfia fez foi escancarar a vontade, transformando peixes pequenos em poderosos “arquitetos” e “indivíduos” adjetivos por seus comportamentos idiossincráticos e limitados (e que fazem “carpintaria”também).

É a filosofia da guerra (“Ir do ponto A ao ponto B com contratempos – bafafás – pelo caminho”), a arte de “simplificar” a existência. Um mundo de espertos e seus egos extravagantes-exóticos-orgulhosos, que medem força não apenas como competição, mas principalmente para retardar a morte já anunciada. De quem tem dinheiro para corromper policiais. “As coisas são como são”, ensina-se com resiliência. Eles trocam implicâncias, provocações, irritações e assim se entendem. É o universo deles. De sobreviver na hostilidade. De apenas sentar e comer o melhor cachorro-quente. De conduzir seus “sindicatos” e seus “anéis”.

“O Irlandês” é um filme para assistir mais de uma vez. Um filme de detalhes, referências, que cada tomada significa um desdobramento. Não há gratuidades. Cada plano indica um propósito. Pois é, quando os créditos sobem, as luzes se acendem, sentimos que o que Martin Scorsese disse sobre “Os Vingadores” na revista Variety faz todo sentido e que talvez Jean-Luc Godard decretou: “O Cinema está morto” ilustre melhor nossos questionamentos, mas caem por terra quando encontramos uma nova obra do realizador de setenta e seis anos. Esta não é uma crítica definitiva. Sem cabine de imprensa aos críticos cariocas. Sessão assistida no Estação Net Botafogo, dia 14/11, 20h20, uma quinta-feira, na espreguiçadeira da fila A.

 

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