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O Inferno

Uma temporada no Inferno

Por João Lanari Bo

O Inferno

Hoje creio haver, no entanto, terminado a relação de meu inferno. E era bem o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu (Arthur Rimbaud, trad. Ivo Barroso)

O Inferno”, longa que o mexicano Luis Estrada dirigiu em 2010, é uma caricatura grotesca do que se passa no México, ceifado diariamente pela violência propulsada pelos cartéis da droga. A palavra caricatura se aplica aqui nos dois sentidos, o literal – desenho de pessoa que, pelas deformações obtidas por um traço cheio de exageros, se apresenta como forma de expressão grotesca ou jocosa – e no figurado, reprodução deformada de alguma coisa. A palavra é de origem italiana (caricare) e significa exagerar as proporções de alguma coisa ou alguém.

Se o cinema não é capaz de reproduzir a realidade na sua complexidade, cabe à ficção exagerar personagens e situações para, grotescamente, induzir no espectador algum tipo de identificação que permita a percepção dos indícios da realidade à sua volta. Basta colocar-se nos corações e mentes de mexicanos e mexicanas para ter uma ideia do impacto que uma proposta estética desse tipo pode provocar (algo que não é estranho para a audiência brasileira).

Sim, a convivência e a proximidade da violência – exacerbada pelos meios de comunicação, certo, mas real – fornecem a chave para inserção de “O Inferno” no imaginário da audiência desse formidável país. A violência, paradoxalmente, tornou-se referência identitária no México: e mais paradoxal ainda é o fato de que este filme fez parte de um pacote de produções financiadas pelo Estado para celebrar o Bicentenário da independência mexicana, em 2010. Na ocasião, disse o então Presidente Felipe Calderón: Celebramos 200 anos de sermos orgulhosamente mexicanos. 2010 é o Ano da Pátria, no qual celebraremos o “ser mexicano” com espírito festivo e com ânimo renovado. Dado que a violência permeia diversos contextos no México, as chamadas matrizes culturais, a relação entre identidade e representação – onde se inclui a narrativa ficcional do filme – está inapelavelmente pautada pela instabilidade, pela iminência de um ato violento: a comemoração seria, em última análise, a comemoração de uma história de violência.

Claro, o México é muito mais que isso, é uma nação vibrante com um imenso patrimônio histórico e excelência em várias áreas do conhecimento. “O Inferno”, entretanto, não quer saber disso e mergulha, grotescamente, na violência. Tudo começa com a volta de Benny (Damián Alcázar), o protagonista, que retorna à terra natal depois de vinte anos como imigrante ilegal no “outro lado”, os Estados Unidos. Sua ingênua surpresa diante do novo México é bem humorada: lembra o nosso Mazzaropi. Encontra a mãe, com quem não teve nenhum contato esse tempo todo, na choupana isolada e desolada, e ouve a trágica notícia de que o irmão menor foi assassinado.

O subgênero cinematográfico aqui é o que os estudiosos chamam de cabrito western ou cinema de fronteira: muita terra e poeira, exteriores, ambientes masculinos, bandidos com sombreros, polícia e ladrão. Logo, na cidade, um pequeno caminhão cheio de balas com cadáveres no chão choca o recém-chegado – alguns poucos pedestres contemplam e saqueiam o morto. À volta, apatia total, nenhuma atividade econômica, exceto o bar-prostíbulo, as prostitutas e os traficantes de droga.

O próximo passo do nosso herói é ingressar no mundo do crime, no início de forma ainda canhestra, como se estivéssemos numa chanchada: encontra o exuberante El Cochiloco (Joaquín Cosio), amigo de infância e capanga do chefão local, Don José Reyes (Ernesto Gómez Cruz). Logo, uma nova vida: e nós, o público, ingressamos num dos gêneros mais populares entre os maratonistas do streaming, o narco-cinema. Benny se transforma visualmente, namora a viúva (e prostituta) do irmão, passa a fazer rondas e coletas tal qual um bom miliciano: assassinatos e mortes se sucedem, a crueldade de Don Reyes é insuperável.

A esperteza do realizador foi a de manter os subgêneros cabrito western e chanchada ativos dentro do gênero maior, o cinema da violência gerada pelos narcotraficantes. “O Inferno” constrói a trajetória do herói Benny como uma mistura de gêneros cinematográficos – e, para arrematar, introduz mais um, a sátira política. A representação ficcional da violência, a mimetização irônica da realidade midiática, convergem para uma crítica feroz do status quo.

De acordo com Benny, ao fim e ao cabo, não há nada para comemorar.

3 Nota do Crítico 5 1

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