O Índio Cor de Rosa Contra a Fera Invisível – A Peleja de Noel Nutels

A memória e seus recortes

Por Vitor Velloso

Durante a CineOP 2021

“O índio cor de rosa contra a fera invisível – a peleja de Noel Nutels” de Tiago Carvalho, em exibição no CineOP 2021, é de uma profunda importância no debate histórico, social e político brasileiro. Além de ser um grande exemplo para a preservação e restauração no país. O resgate aqui realizado é sem precedentes. O material de arquivo projetado é elemento basilar na compreensão material da representação do povo indígena na tela e como essa narrativa genocida foi sendo suavizada e ocultada ao longo de nossa história. 

Quando Noel revela que a “base ideológica do grupo, era o positivismo”, sem grandes surpresas, o espectador deve construir uma ampla relação com a farsa contemporânea de um nacionalismo que é compreendido na representação de uma bandeira cujo lema é positivista. Está claro que essa mesma ideia já era amplamente difundida na ditadura de 64, com diversos slogans sendo copiados para os dias atuais, mas alguns dos depoimentos de Noel expõem problemáticas que devem ser debatidas de forma totalizante. Para além das forças reacionárias, com exposições claras aos crimes cometidos pela Igreja Católica, em uma tentativa violentíssima de homologação cultural e religiosa, há aqui uma abertura para o debate em frentes diversas. 

São diversas as instituições que estão envolvidas no holocausto indígena, do Exército Brasileiro à Igreja Católica, passando inclusive pela educação (do fundamental às universidades), que expõe uma representação criminosa da realidade, e fomenta uma formação de caráter academicista (reforçando que as Universidades são de pilares fundamentais para a manutenção burguesa) que nas próprias palavras de Noel “O próprio médico sai deformado”. E isso está claro há anos: a formação de médicos possui uma negligência (absolutamente conivente) profunda na construção de um programa que forme profissionais capazes de criar um diagnóstico da realidade brasileira. A ausência do debate crítico gera uma ruptura profunda da própria compreensão geográfica de seus lugares de atuação. Por essa razão “O índio cor de rosa contra a fera invisível – a peleja de Noel Nutels” possui uma importância gigante na construção para a esfera cultural brasileira. Para além da memória nacional, é necessário que a obra seja compreendida como patrimônio fundamental no eixo político, social, geográfico etc. E aqui faço uma breve digressão sobre dois momentos da fala de Inês Teixeira (pesquisadora e professora) no debate inaugural da CineOP: 

“E os tempos presentes? Eles trazem em si, os tempos outros, como os tempos da escravidão, os tempos da violência, do genocídio indígena. Tempos estes que insistem em ficar à nossa frente, tempos esses que a gente não conseguiu derrotar” e “Agora, a questão é, tanto quanto esquecimento. É um campo de disputa, em sociedade cingidas por classes sociais, por grupos étnicos culturais, por relações de gênero, regionais e outras mais, essa disputa é absolutamente essencial.” 

Dito isso, a proposta de Tiago Carvalho é conseguir unir esses registros de imagens e depoimentos de Noel (as falas são de 68, dias antes do AI-5) com uma abordagem crítica que trabalha não apenas a representação dos indígenas no cinema e na história, como a própria forma do documentário diante desse material. Assim, a montagem possui uma série de desafios, éticos inclusive, para não compreender essa narrativa a partir de um olhar fetichista ou oportunista (no pior sentido da palavra) e criar uma relação direta com aquilo que a política nacional possui à sua frente. E essa construção é realizada com o próprio Noel “narrando” suas imagens. Essa costura feita pelo filme é tão consciente que as próprias contradições do médico estão expostas na tela. Quando vemos um “índio encostado na cruz”, há uma idealização dessa imagem para um campo distinto do debate. Uma necessidade de deslocar o real para um campo simbólico. O que fica claro quando o centro do depoimento se torna a cidade de Brasília. 

De toda forma, “O índio cor de rosa contra a fera invisível – a peleja de Noel Nutels” é uma obra que permite uma reflexão histórica, sociológica, política e geográfica do Brasil, que não se deixa levar por questões morais usuais. E que possui um compromisso ético com a própria forma, que sendo registros de terceiros, dificulta ainda mais que essa resolução consiga chegar a um diagnóstico crítico e consciente de nossa história, mas Tiago projeta um documentário que não possui uma provocação vulgar, pelo contrário, expõe a farsa de uma série de instituições e “Sebastiões” que se reproduziram no Brasil. 

Trailer

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