O Homem que Vendeu sua Pele

O Mar a Pele

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2020

Durante séculos, os escultores gregos – como o grande Fídias – elevaram a técnica de imitação da natureza a um nível incomparável de idealização das formas: a textura da pele, a expressão facial, as dobras dos panos e as poses – baseadas no estudo da anatomia de superfície – conduziram as figuras escultóricas a um resultado final cada vez mais elegante e sensual. “O Homem que vendeu sua pele”, primeiro filme tunisiano nomeado para Oscar de filmes estrangeiros – e sua diretora, Kaouther Ben Hania, a primeira mulher muçulmana a ser convidada para competir nessa categoria – gira em torno de um torso vivo, um torso de um cidadão sírio que vende a superfície da sua pele no mercado de arte a fim de escapar das agruras do Oriente Médio e desembarcar na afluente Europa. Em um momento, o inescrupuloso artista que concebe e realiza o trabalho – tatuar as costas do impetuoso modelo vivo – afirma, categórico: “os escultores clássicos sonhavam com suas esculturas transformando-se em seres vivos: quero fazer o caminho inverso”. Fídias e seus parceiros levaram anos para reproduzir o simulacro perfeito da pele – uma superfície cutânea que, a exemplo da superfície marinha, fosse capaz de sugerir uma interioridade revolta por debaixo da superfície, proporcionando ao espectador uma fruição mais completa da escultura. No mar, são as correntes e fluxos que agitam as profundezas; na pele, são as emoções e os devaneios que circulam no interior do corpo. Na arte contemporânea, pelo menos no espaço ideológico “arte” que o filme explora, o corpo tatuado com um signo político recupera a história da escultura e ao mesmo tempo inscreve-se no mercado de arte – e a Academia hollywoodiana, que tem um fraco por histórias inventadas contra o pano de fundo de desastres humanitários, aplaude.

Desastre humanitário é quase um eufemismo de organizações internacionais, diante do que aconteceu (e acontece) na Síria: dez anos de crise política e guerra civil tiveram um impacto profundo na população. Estima-se em 6,7 milhões o número de pessoas deslocadas internamente no país, e 13,3 no mundo, a maioria nos países vizinhos, como Turquia e Líbano, mas também em outros continentes, como no Brasil. A ONU calcula em 400 mil a cifra de mortos nesses dez anos. Famílias fugindo da violência, laços familiares cortados e falta de acesso a serviços vitais causados por devastação física massiva são moeda corrente. A situação começou a deteriorar-se em março de 2011, quando o governo de Assad, talvez o mais opaco em uma região de governos opacos – ou seja, que primam pela (quase) total falta de transparência – resolveu usar força letal para esmagar protestos que exigiam a renúncia do Presidente em todo o país. Era a época da “primavera árabe” e persistia a ilusão de que os regimes cairiam por força da mobilização digital alavancada pelo Facebook. No caso da Síria, que seria um dos últimos da fila, faltou combinar com Assad:  a agitação se espalhou e a repressão se intensificou; e o Presidente prometeu esmagar o que chamou de “terrorismo apoiado por estrangeiros”. Rússia e EUA tomaram partidos distintos na querela e mandaram armas e aviões-bombardeiros: o caos se instalou quando organizações extremistas de objetivos próprios, como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, se envolveram. Nada disso aparece ou sequer é mencionado em “O Homem que vendeu sua pele”.

Pelo contrário, o que move a narrativa é o espontâneo Sam Ali (Yahya Mahayni), loucamente apaixonado por Abeer (Dea Liane), de classe alta e olhos azuis cristalinos: Ali acaba envolvendo-se em um terrível mal-entendido e descobre que precisa fugir para Beirute às pressas. Decidido a não aceitar o casamento de Abeer, que só ocorreu por pressão familiar – com um homem próspero e ligado às altas esferas do governo sírio – ele aceita impulsivamente a oferta do inescrupuloso artista e viaja para Bruxelas, devidamente tatuado e metamorfoseado em objeto vivo de arte. A mediadora é a afiada Soraya (Monica Bellucci, em ótima atuação), gerente do artista. Não há nada no filme, entretanto, que seja politicamente estimulante ou revelador. A impetuosidade de Sam Ali e as inevitáveis confusões em que se mete tornam-se, de alguma forma, simplificadas, reduzindo as questões de classe e identidade – um refugiado sírio em plena Europa – a meros subterfúgios de roteiro. Ao fim e ao cabo, “O Homem que vendeu sua pele” tenta sugerir uma sátira ao circuito de arte, utilizando-se de um personagem saído de uma guerra civil. Ficou no meio do caminho.

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