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O Grande Movimento

Contradições e a atrofia urbana

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2022

O Grande Movimento

Em uma caótica sinfonia da cidade, os mecanismos e redes apresentam uma urbanização que transforma a paisagem política em desvelamento das estruturas sociais e econômicas. O plano geral da cidade vai se fragmentando enquanto expõe suas horizontalidades, verticalidades e formas de organização. Os sons da cidade atravessam a sessão como um turbilhão de ruídos que dificilmente são processados de forma sóbria. E nesta contextualização inicial, “O Grande Movimento”, de Kiro Russo, apresenta o rosto dos trabalhadores em um travelling por diferentes expressões e etnias, mas a manifestação, que reivindica a reintegração dos trabalhadores nas minas, é a introdução do protagonista Elder, interpretador por Julio Cezar Ticona, após uma longa caminhada de sete dias até a cidade.

A contradição da condição do subdesenvolvido e luta por direitos é a fatalidade no calvário de Elder. Sua expressão cansada à beira de uma síncope é coroada com sua fala: O ambiente está me matando. Além da epopéia à pé, o personagem é engolido pelo caos urbano, em uma síntese da particularidade latino-americana. As televisões transmitem a ideologia estrangeira, em exibições calorosas de WWE e UFC nas ruas da cidade, onde os trabalhadores se aglomeram para ver os movimentos espalhafatosos, falsos e ideologicamente corrompidos do espetáculo norte-americano. Contudo, a representação dessa realidade concreta é feita em uma base de planos econômico, onde a objetividade é a nota principal de um belo uso de profundidade de campo no quadro. Enquanto os zoom se encerram nos movimentos do trabalho, a montagem assinada por Kiro Russo, Pablo Paniagua e Felipe Gálvez, dá conta de mostrar ao espectador os conflitos espaciais entre a floresta e a cidade. A partir dessa perspectiva, determinados elementos fantásticos passam a cercar a narrativa, em breves insinuações de como a refrega entre o homem e a natureza se desenrolam a partir da materialidade dessa relação.

Porém, existe uma contrapartida subjetiva que é a própria doença de Elder, tão inexplicável quanto inevitável, dada sua condição social em uma sociedade de profunda decadência. Assim como “o terceiro mundo vai implodir”, a frase “La Paz vai virar pó” é uma espécie de sintoma dos trópicos, sem grandes elucubrações ontológicas, apenas uma expressão que resume percepções empíricas de quem está à margem da margem. Por essa razão, “O Grande Movimento” não deve ser compreendido como uma espécie de denúncia racionalista da condição de seus personagens, mas sim de um flerte entre o misticismo, o concreto e um fantástico que se apresenta de forma mitológica diante das belas imagens fotografadas por Pablo Paniagua. A transição da floresta para o lobo em destaque absoluto, é uma cena particularmente especial, que possui ressonância posteriormente na película.

Por mais que algumas cenas sejam difíceis de decifrar, como o número musical, a forma com que essa representação é expressa chama atenção pelo posicionamento frontal da câmera, como um registro que preenche o quadro sem hesitações ou constrangimentos. Não por acaso, o início da cena atrai o espectador ao que parece ser uma performance ritualística e se desenha como uma coreografia coletiva dos trabalhadores da madrugada. Certamente o conflito entre a materialidade das relações sociais e a crença popular, é um ponto basilar no desenvolvimento do filme, seja na recusa do médico em debater a “obra do diabo” ou no emblemático plano de uma figura mágica a vislumbrar a cidade do alto. A fim de encontrar uma representação concreta dessa narrativa, isto é, a síntese de múltiplas determinações, Kiro Russo posiciona a objetiva de forma quase geométrica, mas permite a ocupação do lúdico no centro de suas imagens, criando assim uma espécie de descompasso na continuidade.

Por consequência da torrencial de opressões e constrangimentos sociais, Elder definha ao ponto de ter as “feições imprecisas, indistintas, como duas fotografias sobrepostas na mesma chapa”, para buscar referência na descrição de Erich M. Remarque em “Nada de Novo no Front”. Seu rosto cadavérico é o convite à ópera imagética em alta velocidade, que atravessa trabalhos, matérias primas, resultados de processos, rostos e, por último, a síntese da sociedade de classes: assalariados e burgueses, que não se aglutinam no quadro, mas se digladiam na montagem. Por fim, quando “O Grande Movimento” encerra sua reflexão, a imagem da carne moída surge como um epílogo do ser social nessa grande contradição sistêmica, provocando um choque imediato no espectador e encaminhando a imagem de uma ressurreição reflexiva da condição dos atores urbanos, a partir de uma exposição metafísica, que contrasta com a construção inicial da obra.

Mais reflexivo que objetivo, o projeto é desafiado pela própria estrutura narrativa, mas as sensações experienciadas podem ser recompensadoras para quem se permitir o mergulho durante a projeção.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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