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O Filme da Sacada

A materialidade em trânsito

Por Vitor Velloso

Durante o É Tudo Verdade 2022

O Filme da Sacada

Resgatando a tradição dos documentários de observação e registro do cotidiano, “O Filme da Sacada” de Paweł Łoziński, em exibição gratuita na 27ª Edição do É Tudo Verdade, é uma bela representação de como esse formato pode ser rico na compreensão da realidade social de um país e uma região particular. Um dos grandes trunfos da proposta é que sua aparente inércia formal se transforma em um recorte de constantes mudanças temáticas, iniciando na prosa cotidiana e demonstrando as inúmeras camadas da percepção da realidade em distintas figuras que cruzam a calçada em frente ao apartamento do cineasta.

Dessa forma, o que em um primeiro momento é apenas uma série de conversas, umas mais amigáveis que outras, com pessoas reclamando da vida e desabafando sobre suas situações, torna-se um retrato político, social e local de como parte dos transeuntes se manifestam diante da câmera, tanto na timidez, subjetiva ou ocupacional, quanto no palanque para que nacionalistas ultraconservadores possam expressar sua indignação com imigrantes e a “viadice”, nas palavras dos homens, que toma conta da Polônia. “O Filme da Sacada” consegue transitar entre essas diferentes questões justamente pela falta de controle que o cineasta possui dos acontecimentos que registra na objetiva. Assim,apenas na ilha de edição é capaz de organizar as imagens e essa estrutura tão caótica quanto elucidativa dessa região da Varsóvia.

Diferentemente de boa parte desse tipo de documentário, o longa de Paweł Łoziński é capaz de ser dinâmico diante da realidade prosaica, partindo de uma frequência que agiliza esse processo, sem ter de apelar para questões que se mantém presas em uma espécie de observação sem interferência. Pelo contrário, o cineasta é motor de boa parte desses diálogos, já que sua atitude de chamar seus personagens para o quadro movimenta esse cenário que torna-se uma paisagem política não pela natureza do local, mas pelo imbricamento do público com o privado, a partir da profundidade de campo aqui explorada. Assim, quando há essa troca bilateral entre a criação das imagens, e das situações, o campo dialético é reforçado nos diversos assuntos e mutabilidade dos humores, do clima, dos compromissos e da necessidade do autor em captar material para o filme. Desta forma, quanto mais a projeção avança, essa paisagem se torna campo de discussão e confessionário, onde a materialidade da vida é um câmbio de oralidades. Em um determinado momento, um dos pedestres assume seu sentimento de culpa em ter falhado diante da criação que recebeu, admitindo ter ferido uma pessoa e que essa memória o atormenta todas as noites. Aqui, a disparidade social e a diferença de classe torna-se o martírio do diálogo, com o personagem dizendo sentir inveja da vida de Łoziński que possui estabilidade, amor e uma família.

Essa é a característica fundamental para que “O Filme da Sacada” seja capaz de relacionar sua linguagem, com o campo de imagem se repetindo diversas vezes, ainda que com enquadramentos brevemente diferentes e pouquíssimos movimentos de câmera, e sua pretensão de tornar esse registro parte fundamental das discussões ao longo de um longo período, marcado pelas mudanças de estação do ano. Não por acaso a pessoalidade é o que une algumas repetições de transeuntes, que retornam para continuar histórias, ou mesmo confessar o que antes não conseguiu. Em determinado momento do documentário, uma mulher retorna à frente do apartamento com o parceiro e seu filho, para que os mesmos possam participar da gravação. Desta forma, a impressão inicial de distanciamento da calçada, dá lugar ao cotidiano dessa gravação e integra os diversos fatores sociais exteriores ao enquadramento, não por vontade própria ou movimentos formais, apenas pelo vai e vem de uma região que é representada entre o orgânico e o material na mesma intensidade. Isso tudo só é possível porque o maior interesse do filme não é situar os movimentos que ocorrem no espaço público, mas seu interesse pelas pessoas, e individualidades, que ali circulam.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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