O Filho de Mil Homens
Estranhos espaços
Por Vitor Velloso
Mostra de Cinema de São Paulo 2025
Determinados projetos procuram compreender seus personagens por meio de suas diferenças perante o mundo e a normatividade ao seu redor, como que criando contrastes para destacá-los dentro de um mundo em que eles não se “encaixam”, ou o contrário. Seguindo uma estranha – literalmente – tendência de parte do cinema contemporâneo, “O Filho de Mil Homens”, dirigido por Daniel Rezende, procura abarcar esses personagens que estão fora da normatividade estabelecida socialmente por um tipo particular de modo econômico, social, ideológico etc., para criar uma dualidade entre a percepção do espectador sobre esses arquétipos – ou quase isso – e essa tipificação de relações que se constroem na tela.
Por um lado, é interessante que isso é um pouco do que Guilhermo Del Toro tem feito em suas obras recentes e algo do que Yorgos Lanthimos tem tentado fazer em seu cinema; mas, diferente dessa concepção mais asséptica de universo e de personagens, Daniel se baseia no livro homônimo de Valter Hugo Mãe (que não li) para criar um retrato intimista de pessoas que se veem à margem de expectativas, do padrão e que sofrem com julgamentos de todos os tipos. O esforço de “O Filho de Mil Homens” é quase o de suspender essa localidade para criar uma geografia reconhecível pelo espectador, por meio das repetições (a praia, a casa etc.) e, de alguma forma, circular pela superfície dessa cultura, evitando o caráter expositivo, ao mesmo tempo que se apresenta de forma tão explícita que se torna quase um adorno. E essa é uma dualidade complexa dentro do projeto, pois, à medida que estiliza esse território para criar essa identidade de seus personagens e transforma o mundo ao redor em algo estranho, ele se torna cada vez mais artificial. Esse jogo estético pode afastar ou aproximar o público das intenções do filme, funcionando como uma faca de dois gumes. De toda forma, à medida que vamos tendo a oportunidade de ver as sutilezas e delicadezas, entendemos a aproximação de cada personagem como um gesto de cuidado e de solidão da própria obra, que recusa o isolamento desses fios narrativos e desses dramas tão humanos, ainda que unidimensionais.
Há uma ambiguidade constante – que realmente costura o roteiro até o fim – entre o quanto há um esforço para transformar os personagens em exóticos, ou o cenário em si em exótico, e, quanto mais elementos de estranheza aparecem em “O Filho de Mil Homens”, especialmente pela direção de arte, assinada por Taisa Malouf (“Selah e os Espadas”, 2019), que, em conjunto com a direção de fotografia, assinada por Azul Serra (“Aos Teus Olhos”, 2017; “Canastra Suja”, 2016; “Homem com H”, 2025), cria uma espécie de espaço reservado para a exposição de determinados machucados na vida de cada um, explicitando um caráter expositivo que recorta essas sequências da experiência do filme, em especial quando mostra as figuras que são responsáveis pelos julgamentos e preconceitos.
Dentro desse grande esforço de Daniel Rezende, ao tentar conduzir tantos elementos para um realismo mágico, que é mais extraordinário por ser improvável e lúdico, há certas questões que dificultam a manutenção do ritmo do projeto, em especial por forçar um caráter episódico, com numeração e título, que podem até possuir algum significado para a compreensão geral do discurso, mas criam uma certa distração em um filme que já possui tantas interrupções nessa progressão, aliás as histórias vão sendo “coletadas” de forma esporádica, bastante não-linear, e irregular.
“O Filho de Mil Homens” é um projeto de nobres intenções e particularmente ambicioso dentro do atual estado do cinema brasileiro contemporâneo, que tem utilizado o realismo mágico e a fantasia como uma necessidade de escape, um dispositivo estético e apenas um recurso do momento, como uma muleta para se inserir em determinados espaços. Ainda assim, existe algo de artificial no longa, que consegue traduzir esteticamente algo particularmente interessante, mas que na construção geral se torna engessado, com o ritmo truncado e algumas sequências que realmente não funcionam, talvez pela superficialidade no trato das questões abordadas, em especial o bloco dramático do personagem de Massaro, que é um tanto costurado no interior de outros blocos.
Ainda assim, é importante que um filme brasileiro esteja conseguindo larga repercussão fora da bolha cinéfila, ainda que dependente da plataforma de streaming estrangeira.


