O Drama

Propulsor de incômodo

Por Francisco Carbone

O Drama

O diretor Kristofer Borggli tem apresentado criações fora do comum dentro de sua filmografia. Em “Doente de Mim Mesma“, a obsessão pela aparência extrapola os limites do aceitável. Em “O Homem dos Sonhos“, Nicolas Cage tenta compreender porque o mundo se fixou em sua imagem de maneira literalmente onírica. Em “O Drama”, um dos maiores traumas da sociedade americana moderna está no centro das atenções. Houve quem dissesse que o tema em questão não deveria ser utilizado com o intuito escapista e/ou vazio. A pergunta que fica no ar: onde enxergou-se na produção a ausência de vontade de comunicação? Talvez a análise de cinema esteja perdendo grandes oportunidades de compreender o mundo em que vivemos ao batizar erroneamente alguns códigos. Porque eles estão expostos em sua narrativa – mas isso não é necessariamente apenas um problema de “O Drama”, não é mesmo?

Estrelado por Robert Pattinson e Zendaya, o filme acompanha de maneira leve o processo de aproximação de um casal desde a sua gênese. Ele a vê em uma cafeteira e se aproxima de maneira atabalhoada; os eventos se sucedem, a química se explicita, os amigos são mostrados. Enfim, a paixão – e a posteriori, as bodas são marcadas. Não há velocidade de videoclipe nessa espécie de apresentação, o ritmo estabelecido pela montagem respeita nossa condição de espectador e entende a dinâmica dos dias de hoje. Tem contexto no que vemos e as entrelinhas são postas com qualidade. Em determinado momento, dois casais (os protagonistas e seus amigos) resolvem revelar um segredo que considerem indizível, e a personagem de Zendaya cria uma armadilha pra si que implode a todos à sua volta, incluindo seu futuro marido.

Em matéria de ponto de partida, raras vezes veremos algo com a musculatura de “O Drama”. O filme não se designa a um gênero cinematográfico específico, e talvez por isso se permita passear por vários. Com uma visão de marketing interessante, o filme aparentemente seria designado para a comédia, mas a própria dinâmica em questão não nos deixa aproximar dessa ideia. Ao contrário do que tem se aventado, o filme não é uma comédia de mau gosto porque nem se pretende a ser uma; não há apontamento que revele isso. Mas sim, Borggli é um provocador, como um bom cineasta pretenderia ser. Ele transmuta sua obra com os perfis de dois atores queridos do público maior para incentivar uns discussão que salta da tela. O que está em debate para o que o filme apresenta só ainda não vazou de maneira mais ampla porque sua estreia acabou de acontecer e existe sim uma preocupação com a divulgação de seu plot, que é genuina e tem razão de ser exigida.

A partir dessa revelação, “O Drama” mergulha seus personagens em uma crise pessoal e coletiva acerca do que é moralmente aceito, e de quanto podemos nos sujeitar mediante algo que ficou no campo das hipóteses. A premissa de “Minority Report”, por exemplo, onde futuros criminosos tinham a sua pena decretada antes dos atos acontecerem, que eram previstos por oráculos. Já existe culpabilidade antes da ação? Em torno dessa questão é que não apenas os protagonistas irão se ater, afinal trata-se de uma questão chave ligada à violência na América do Norte. Borggli deixa de lado o que classificaria sua direção e sua luz como algo demarcado nessa leveza já citada. A partir de então, o filme se divide entre alguma penumbra esperada e flashbacks de Zendaya, rememorando uma adolescência como qualquer outra, mas que uma sociedade adoecida moldou para o macabro.

O clima de ambiguidade nem sempre se mantém acertado, porque existe na direção de atores diretrizes disparatadas em relação ao que eles encenam. Pattinson e Zendaya estão muito bem, contribuindo para a séria discussão proposta, mas um olhar mais apurado revela que Alana Haim e Mamodou Athie são as molas de debate do que vemos. Eles são o casal de amigos que debatem a gravidade do que foi dito, são a voz do público final, que escolhem e apontam lugares de julgamento. Se a performance de Haim escorrega no clímax por um motivo que o próprio roteiro não consegue dar arremate positivo, Athie nunca desanda com sua visão ainda menos assertiva em busca de uma saída.

Ainda que ao final de sua projeção algum cansaço seja percebido, através de algumas soluções menos inspiradas, “O Drama” se estabelece de maneira positiva. A cena final, esperada e decantada no desenvolvimento, aparece sem qualquer delicadeza, e isso é positivo. Ali, os protagonistas já se embruteceram e não temos mais a primeira camada de suas personalidades impressas. Muita coisa aconteceu que não pode ser desfeito e o passado à tona agora também são agrupadas a boas doses de presente. Não realmente uma solução fácil nem a quem assiste ao filme, imagina aos que encenam. Dessa forma, o afinal aberto é o mais acertado – que decisão tomar? Não há consenso na resposta porque essa é uma narrativa inesgotável. Doa a quem doer, e acreditem: existe dor.

3 Nota do Crítico 5 1

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