O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

Entre poemas berrados e imagens-tesouro

Por Fabricio Duque

Assistido durante o Festival É Tudo Verdade 2026

O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto

A máxima popular que diz que um povo sem memória comete os mesmos erros no presente e não se evolui ao futuro pode ser oportunamente empregado no filme “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de Rosemberg Cariry, cuja cópia foi restaurada de 1986 pela Museu da Imagem do Som do Ceará (a partir de negativos de imagem e som originais), que integra a seleção do Festival É Tudo Verdade 2026. Sim, observar o passado e perceber mudanças, atrasos e signos nos ajuda a consolidar nossos discernimentos e ideias expandidas do todo, este que se condensa na sociedade em que vivemos. Sim, tudo é sobre nossa existência perante a coletividade ao longo dos tempos. A maestria de Rosemberg está em seu olhar sensível, espirituoso, despretensioso, livre, mitigado de pré-julgamentos e de busca pela metafísica inerente da própria vida, especialmente quando essa obra é um documentário, mergulhando assim em um Brasil fenótipo, de comportamentos reais, genuínos e típicos.

Rosemberg não quer performar o excêntrico, tampouco a etnografia “selvagem”, mas retratar o orgânico coloquial pela poesia coletada no cotidiano e nos costumes locais. É um filme de fragmentos históricos, com a estética do zoom direto, ao mesmo tempo nostálgico, caseiro e sensorial, principalmente pelo protagonismo condutor da música da própria cultura, que mais parece de sonho acordado. E pela narração que contextualiza “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” documenta uma tradição religiosa pela narrativa conceitual, que teatraliza a invocação da estrutura ancestral numa visitação “invasão” a um museu.

“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” é “dedicado à memória dos camponeses que morreram lutando pela justiça e pela igualdade e também para os vivos que da boba do último morto resgataram a palavra liberdade e na terra iniciam a semeadura da vida”. Para traduzir tudo isso, Rosemberg filma, de forma estendida, os rostos desses personagens reais e assim nós voltamos ao tempo e assistimos como era a vida (e as expressões) naquele tempo. O filme é exatamente isto: uma cápsula do tempo de instantes do passado impressos visualmente poéticos, como o bói-bumba com a luz atravessada do sol “nascendo” na areia de uma praia ao som da narração (em forma de “poemas berrados”), quase jornalística, imparcialmente crítica e conscientemente resignada dos problemas vividos, sobre “latifúndios que dividem o Nordeste entre senhores e miseráveis”, entre “beatos, cangaceiros, massas oprimidas, o povo pobre que se agitava, caminhões e do Padrinho Cícero”. Podemos dizer que este é um filme tese. Uma obra textual, em que o discurso político-social (“democracia, romaria e rebeldia popular”), de cunho acadêmico (mas filosoficamente de manifesto revolucionário), dita a própria condução do nosso olhar e do nosso foco-detalhe, numa montagem cirúrgica e precisa de conjugar palavra e imagem, por “muitas histórias que abrem as portas da compreensão, para entender as esperanças e enganos”.

“O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” é um pequeno grande tesouro (de valor inestimável), que traz um compêndio de nossa própria História (e especialmente a de Juazeiro do Norte, “a nova Jerusalém”) e desse povo cearense sofrido que precisou lutar muito para sair da seca do sertão e do mapa do fome e conservar a resiliência e não desistir da própria existência. O filme-aula, pululado de adjetivos, nos permite analisar vestimentas, comportamentos, religiões, comidas típicas, “milagres”, “fanatismos” e formas de viver dessas personagens principais de uma época em “busca da terra prometida”. O filme é quase um “buraco de minhoca” barroco do tempo, porque a época oitentista trazia a História gênese e agora nós somos convidados a receber dois passados no meio de um presente vívido e real, em destaque a de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e todas as manifestações populares que compõem o lugarejo.

Sim, tudo apresentado aqui atende a todos os propósitos de um documentário, e vai além ao experimentar linguagens, ora por depoimentos, ora por captação de imagens sempre pela estética e pelo conceito autoral, e nunca de forma tradicional. Cada cena é um convite a essa viagem intertemporal, numa riqueza inquestionável do poder, força e potência de tudo o que foi filmado. Como já disse e já repeti neste texto, a maestria de “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” não está só na forma narrativa construída que Rosemberg Cariry, mas muito pela carga histórica de suas imagens (cuja pesquisa foi feita pelo diretor e por Firmino Holanda), que desenham tudo de uma época particular e que até incluem os bastidores do próprio filme em “ação” (e também pela música “Caldeirão”, de autoria do próprio Rosemberg Cariry, junto de Cleivan Paiva. A restauração conta com a produção executiva de Bárbara Cariry e com a supervisão técnica e color grading de Petrus Cariry. Pois é, um filme em família sobre nossas experiências coletivas.

5 Nota do Crítico 5 1

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