O Cinema é Minha Vida

Permissão para ser incompreendido

Por Fabricio Duque

Festival Estação Virtual

Há muito o cinema deixou de ser apenas uma forma  do olhar para se tornar uma expansão da própria existência da imagem, esta que deixou de ser uma limitação e encontrou a liberdade. Só que a essência do cinema não mudou: continua sendo um ato incondicional de amor e uma paixão arrebatadora que nos consome. E que não vai embora. Não, talvez nunca conseguiremos explicar tal sentimento. O cinema nos mostra a verdade ainda que se comporte como uma mentira (uma ficção que imita a realidade). O cinema nos afunda em questões psicológicas. O cinema nos estimula risos, choros, aversões e catarses. O cinema nos afasta de nós mesmos para nos aproximar do melhor que possamos ser.

O cinema nos liberta, nos salva e nos fortalece. O cinema é uma terapia de choque. Um confronto. Uma possibilidade cúmplice de experimentar todas as sensações possíveis. O cinema nos melhora como seres humanos, ensinando e puxando nossas orelhas. O cinema é um pai, uma mãe, um tutor e um deus. O cinema é a melhor maneira de ensaiarmos a própria vida antes de realmente vivê-la. É uma cinefilia que causa uma felicidade desmedida, quase infantil.

Cada obra é como um brinquedo novo a ser analisado, degustado e regurgitado. Cada um se questiona, especialmente seus críticos que escrevem linhas, ideias, definições, absurdos e máximas. Sim, no cinema tudo é permitido e livre de moralidades conservadoras. Com isso dito, quando o casal de cineastas Patricia Niedermeier e Cavi Borges se junta a Rodrigo Fonseca em “O Cinema é Minha Vida” novas camadas transcendentais são amalgamadas e desconstruídas desta sétima arte que funde teatro, filme e projeção lúdica.

“O Cinema é Minha Vida” é uma experiência. Um ensaio editado de um amor inquebrável pela chancela filosófica (e pessoal) do realizador francês François Truffaut, que aqui perde identidade sexual ao ser interpretado por Patricia Niedermeier, em uma entrega “salto no vazio” sem se preocupar com a volta. A escolha pode parecer uma feminista reparação história, mas na verdade quer significar o total desemparelhamento ativista com a plena liberdade espectral (do mais intrínseco presente na alma fulgural), fazendo assim que as ideias e essências sejam as reais protagonistas, condensadas em partes-esquetes da vida de Truffaut, um “pivete” que não só amadureceu pelo poder da imagem como foi salvo por ela. A obra filme-peça, inicialmente uma peça-filme “François Truffaut – O Cinema é Minha Vida” no ambiente teatral, agora, estreia mundial no Festival Estação Virtual, ganha às telas, ainda que online.

Ao “ler” o filme, o espectador percebe que “O Cinema é Minha Vida” é uma permissão para ser incompreendido. Para ser uma vírgula deslocada. Um destoante deste mundo sem sentido. É também uma obra para “ouvir”, remodelada ficcionalmente pela entrevista da Cinemateca Francesa pelo mediador interpretado por Rodrigo Fonseca. “O Cinema é Minha Vida” é também uma visão de bastidores. Nostálgica, orgânica e analógica. De se colocar entre cenas, tempos e espaços. Por Truffaut ser talvez o mais cinéfilo dos cinéfilos, o diretor de “A Noite Americana” (e que foi ator em “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, de Steven Spielberg), o mais americano dos franceses, é sempre referenciado. A peça de 2019 nasceu com o argumento de comemorar os 60 anos de realização do seu primeiro filme e trazer três tempos – camarim, entrevista e epifania – memórias, insights e seu profundo amor pela sétima arte e as mulheres que preenchem o palco, com suas pernas e formas femininas, com sua sensibilidade quase adolescente de desejo-tesão  em cada frame construído. Ano que também marcou a data de 35 anos de sua partida. Em outubro, aconteceu a Mostra Truffaut em 35mm: Uma Semana de Cinefilia na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

O que pode ser considerado caseiro e apaixonado demais em “O Cinema é Minha Vida” é o que faz do filme a melhor tradução de François Truffaut, ainda que no filme, talvez por razões autorais, sua figura precise se transformar em pseudônimo. Em uma sugestão-dica. Sabemos que é Truffaut, mas pode ser qualquer um, outra metáfora maestria naturalmente incorporada. Dessa forma, Truffaut ou sua ideia de ser potencializa existências e vivências de todos nós, cada um como um inveterado cinéfilo. Como um jovem turco que senta na primeira fileira do cinema, sempre próximo à tela grande, para receber o filme antes de todos. Sim. Um ato egoísta. Um utópico individualismo fetiche que só quem realmente ama (morre e vive no cinema) pode compreender. Para os outros, somos apenas incompreendidos. “O Cinema é Minha Vida” é nossa luz, nossa voz e nosso protesto solitário e silencioso sobre quem nós realmente somos e sobre o porquê desta paixão que nos rasga o coração. Obrigado Truffaut ou quem quer que você seja!

Trailer

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    Belíssimo e emocionante!
    Texto que transborda nossas percepções do filme!!! Um presente a seus criadores!
    OBRIGADA Vertentes de Cinema!!!
    Esse é o nosso maior presente!!!

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