O Charlatão

Quem engana quem?

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020

Exibido no Festival de Berlim 2020, depois integrante da seleção online da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e representante da República Checa ao Oscar 2021, o novo longa-metragem “O Charlatão”, de Agnieszka Holland (de “Rastros”, “Na Escuridão”, este que concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro), é um filme de confronto, entre Estado e Sociedade. Uma sistematização  de processos de cura de doenças versus possíveis alternativas de tratamentos (considerados apenas métodos pouco ortodoxos de oportunistas curandeiros que só merecem o mesmo “fogo das bruxas”). Baseado na história real do tcheco Jan Mikolášek, “O Charlatão” busca conduzir seu público a um processo. A uma análise de discursos e argumentos. De fatos, estatísticas, tentativas e erros até encontrar a eficácia. É a universalidade do tema do eterna briga de cientistas-descobridores do novo contra o negacionismo (e “pé atrás) dos iniciantes crentes nas mesmas convenções.

Contudo, “O Charlatão”, narrativamente, não tem para onde fugir, sendo obrigado a seguir o padrão de novela da estrutura cinematográfica, com todos os seus gatilhos comuns (da guerra, por exemplo), clichês do gênero (como digressões rememoradas – passado e presente, visões, premonições), a culpa moral da religião por ser “devoto e católico”; e artifícios cômodos da imagem (ou neste caso de pretensão ingênua à moda de um exercício de faculdade de cinema: a câmera microscópica na urina), como a cena inicial: os últimos respiros de um homem, potencializando a carga sentimental, muito pela inserção música de efeito, que sobe o tom para manipular nossas emoções, e pela sua ágil edição (de mostrar tragédias, hospitais, feridos, policiamento – em fotografia mais embrutecida ao constraste), ainda que intercalado com imagens da época, a fim de evocar a sinestesia nostálgica e importar, na forma moderna, a reconstituição de um passado, para assim tentar aproximar o espectador à trama.

Como assistir ao filme então? Como uma adaptada biografia, didática e ficcional. O filme resume e se mantém na superfície. Mais palatável. As análises médicas, causas das mortes, experts em plantas medicinais, o nascimento dos florais, tudo é apresentado e recebido com descaso pelos mais conservadores (acostumados com os métodos atuais). A história causa o conflito quando problemas são resolvidos e doenças abrandadas com prescrições de vitaminas (uma falta de nutrientes e “não pólio”), “estilo de vida e na dieta alimentar”. E ensinando a “sutileza e ser livre”.

“O Charlatão” pode ser traduzido como a saga de homem que  não “se aposenta”, porque quer “curar o mundo” (um “curandeiro”) e porque “precisa salvar as pessoas” (altruísta), mesmo sendo duro, direto, pragmático, intransigente e sem tempo para mascarar comportamentos-cumprimentos sociais. Jan Mikolášek ganhou a “notoriedade de Cristo”, curando pessoas pobres das aldeias e também o presidente da Checoslováquia, Antonin Zápotocký. Mesmo contra todos, o herborista construiu a “nova medicina”, bem menos agressiva. Ao chamar a atenção do regime comunista tcheco, ele foi preso depois que estricnina foi encontrada nos corpos de dois homens que ele havia tratado. Depois de tanto, um erro perdoável, mas aos olhos julgadores de plantão (que viram as costas), a peça que faltava para acabar com o “charlatanismo”.

Quanto mais o longa-metragem se desenvolve, mais clichês são adicionados (gatos assassinados para chocar o público, por exemplo). É neste ponto que percebemos que até o próprio roteirista (e sua diretora) desistiram do próprio filme, nos indicando que cansaram de tentar buscar vanguardas visuais com a saída facilitadora dos novos conflitos e das reviravoltas. Outra questão entra quente na obra: ser empregado por ser bonito, gay, leal e oferecido? Um sugerido flerte acontece, gerando uma tensão sexual entre os dois homens. Mas o relacionamento é proibido. E se intercala o passado com mais cor. E no presente uma flor amarela no meio do cinza. Gente, o roteirista dormiu! Polêmica à vista! Chame os assassinos de gatos! Na verdade, acho que os gatos abandonaram mesmo o navio. A condução agora caminha pelo terreno infantilizado. De simplicidade simplista de “formiga mordendo a bunda”. Então, o julgamento agora é ser humanista, curandeiro e homossexual? Mais “vício”? Morfina, por favor.

“O Charlatão” é o que chamamos de filme passatempo. Um melodrama forçado com choros de uma lágrima só. Na investigação final, o sofrimento é fantasiado, e à espera da pena de morte. Sim, um filme para toda a “família”, especialmente pelo discurso de que “machos são homens animais, brincam de brigar”. Pois é, toda forma de se contar histórias do mundo é válida (especialmente a de Jan Mikolášek), mas o que tudo indica é o espectador daqui o verdadeiro enganado e manipulado, fazendo com que nossa conclusão seja a de que Charlatão é mesmo o que acabamos de assistir.

Trailer

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